sábado, 23 de setembro de 2017

Trens novos da CPTM, prometidos por Alckmin, tomam sol e chuva à espera de testes


Superlotação, atrasos e falhas constantes. Esses são ingredientes conhecidos por qualquer usuário frequente das linhas da CPTM, na Grande São Paulo. Enquanto isso, a 110 km da capital paulista, vagões novos, já pintados com o símbolo da companhia, acumulam poeira e tomam sol e chuva no pátio da fábrica.
São cerca de 80 vagões (o equivalente a dez trens inteiros). Eles estão espalhados pelo terreno e galpão da espanhola CAF, a fabricante, na cidade de Hortolândia –a reportagem da Folha sobrevoou o local nesta semana. O motivo alegado para esse cenário é um gargalo na estrutura de testes obrigatórios dos novos trens antes de entrarem em circulação na rede sob a administração do governo de Geraldo Alckmin (PSDB).
São duas as empresas fornecedoras de novos trens: a CAF e a coreana Hyundai. Por contrato, cada uma delas tem direito a apenas quatro espaços de cada vez para testes nos trilhos da estatal. Sendo assim, qualquer atraso vira um entrave para toda produção.
Alckmin chegou a anunciar que os trens demorariam somente um mês para serem testados. Desde maio, porém, a espera tem sido de dois meses, em média. Nesse ritmo, todos os 47 trens (quase 400 vagões) que ainda restam ser entregues só chegariam à população em 2019, três anos após a previsão inicial.
O governo do Estado diz que, se as fabricantes solucionarem os defeitos encontrados pelos engenheiros da CPTM na hora dos testes, a liberação seria agilizada –cabe à estatal aprovar os trens. Uma solução seria a ampliação do número de trilhos da CPTM dedicados aos testes, atualmente entre as estações Lapa e Presidente Altino. Mas, para a estatal, essa medida implicaria em novo prejuízo ao já complicado tráfego.
O pagamento pelos novos trens é feito de maneira parcelada. Parte no início da fabricação (28,5%), outra parcela na saída da fábrica para testes (29,25%) e uma terceira quando os trens completam os testes (29,25%). A quarta parte é paga quando eles são aprovados em simulações na linha em que serão utilizados (10%). O último pagamento ocorre depois dos últimos testes já com passageiros (3%).
Exemplo: um trem pronto para testes, mas parado na fábrica, já custou ao governo do Estado cerca de R$ 8 milhões. Após todos os testes, as empresas receberiam ainda mais cerca de R$ 20 milhões.
O governo Alckmin afirma que não há falta de dinheiro para pagamento dos trens. No final deste mês, dois trens devem deixar a fase de testes e liberar espaço para novas composições. Cerca de R$ 20 milhões foram aplicados em multas às duas empresas devido a atrasos de entrega. Além do atraso, o Ministério Público investiga falhas de produção nesses lotes, o que, em tese, atrasaria a liberação dos trens.
Procurada, a CAF não quis comentar o contrato ou os trens parados em sua fábrica. A Hyundai diz estar empenhada em cumprir o contrato.
Com 260 km de trilhos em operação, a CPTM transporta em média 2,8 milhões de passageiros por dia, em seis linhas que ligam São Paulo a outras cidades da Grande SP.
CONTRATOS
O contrato com as duas empresas, de quase R$ 2 bilhões, foi assinado quatro anos atrás. Mas, de um lote de 65 trens, apenas 18 estão em uso. Todos eles deveriam já estar rodando desde 2016 nas linhas 7-rubi (que liga a capital a Jundiaí e transporta 450 mil passageiros por dia) e 11-coral (que corta a zona leste e segue até Mogi das Cruzes, com um total de 724 mil passageiros diários).
O primeiro tropeço do contrato foi a falência da Iesa, uma das empresas que formava consórcio com a Hyundai. A coreana, então, assumiu o compromisso de entrega de 30 trens, mas teve que refazer todo seu planejamento.
A inauguração da fábrica onde seriam montados os vagões só ocorreu em março do ano passado. O governo chegou a divulgar que a Hyundai entregaria os 30 trens até agosto de 2016, mas o prazo não foi cumprido. Até agora apenas três trens deste lote foram entregues.
Já a CAF demorou para aprovar os trens fabricados nos testes exigidos pela CPTM. Segundo o secretário estadual de Transportes Metropolitanos, Clodoaldo Pelissioni, o primeiro trem da espanhola demorou 13 meses para obter os certificados de todos os testes da estatal. Por isso, o governo paulista só colocou o primeiro trem destes contratos para rodar em julho do ano passado, um mês após o prazo contratual de entrega de todo o lote.
A expectativa do governo era de que, após o primeiro teste, as aprovações seguintes seriam mais fáceis. Nessa época, o governador paulista anunciou que a CPTM inauguraria, em média, quatro trens novos por mês. Prorrogando a promessa inicial, ele disse que até o fim de 2017 as 65 composições estariam funcionando. Mas o ritmo está abaixo do esperado.
Alckmin tem pressa, já que deixará o cargo em abril para a disputa das eleições do ano que vem. Ele trava uma disputa interna no PSDB com o prefeito João Doria para a escolha do candidato do partido ao Palácio do Planalto.
FORNECEDORAS
O governo Geraldo Alckmin (PSDB) diz que a demora pela entrega dos trens se deve às fornecedoras do contrato. Já a CAF não se manifestou sobre o caso, e a Hyundai diz que está trabalhando para entregar os trens. Para o governo, que prometeu os trens para 2016, as duas indústrias contratadas encontraram dificuldades e, assim, atrasaram a produção.
"A CAF, infelizmente, tinha como prazo colocar o primeiro trem em operação em três meses, mas ela demorou 13 meses. A Hyundai é um problema maior ainda, pois ela se associou à Iesa, que quebrou. A grande dificuldade do contrato é colocar o trem em operação [aprová-los no teste]", disse Clodoaldo Pelissioni, secretário estadual dos Transportes Metropolitanos.
Segundo o secretário, os testes nos trilhos são importantes para identificar falhas não verificáveis pela CPTM na fábrica das fornecedoras. "Choveu dentro do trem e tivemos que trocar a vedação no período de testes", disse.
A Hyundai diz acreditar que se a estrutura para testes da CPTM fosse ampliada, seria possível a liberação de mais trens. A empresa afirma ainda ter investido sozinha R$ 100 milhões na construção de sua fábrica no Brasil. A CAF não comenta o contrato, alegando sigilo contratual.
Folha de São Paulo – 22/09/2017
Comentário do SINFERP
Enquanto isso lá vai dinheiro público para o ralo. 

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