segunda-feira, 22 de maio de 2017

Em tempos de crise, metrô vira alternativa para ambulantes e artistas independentes


Comuns em ônibus e trens, trabalhadores informais driblam a fiscalização da concessionária e já são vistos com frequência em vagões.  
RIO — A crise embarcou no metrô. Vendedores ambulantes, que costumavam comercializar produtos como balas, chicletes e barras de cereais em ônibus ou vagões de trem, agora descobriram uma rota alternativa e já circulam com frequência pelas composições das linhas 1, 2 e 4.
— Estou desempregado e tenho oito filhos em casa para sustentar. Tenho que trabalhar — disse um vendedor que oferecia bala em um vagão de metrô, na manhã de ontem, e não quis se identificar.
Um outro ambulante, de prenome Cléber, que, com o fim do verão, trocou o calor da praia pelo fresquinho das composições metroviárias, conta que ganha cerca de R$ 50 por dia com as vendas nos vagões contra os R$ 200 que conseguia trabalhando, de sol a sol, com os pés na areia.
— No metrô é mais confortável — compara ele, que tem de driblar a fiscalização dos funcionários da concessionária para manter o negócio. — Quando os fiscais me veem, eles me tiram do vagão e da estação. Aí, eu compro outra passagem e volto. Qualquer um tem o direito de ir e vir.
Outro que foge da fiscalização é o artesão Wellington de Castro. Ele distribui aos passageiros flores feitas de folhas de coqueiro, na expectativa de uma recompensa. Nesta sexta-feira, pela manhã, Wellington ganhou muitos sorrisos em um vagão. E algumas notas de R$ 2 e R$ 5, além de moedas.
— Também distribuo as flores em ônibus, mas, no metrô, tem mais gente — diz ele.
Uma das pessoas que contribuíram com o trabalho de Wellington foi a administradora Isa Duarte, que pega o metrô duas vezes por semana e diz não se incomodar com a presença dos ambulantes:
— Está tudo muito difícil. É preciso entender que essas pessoas estão sem perspectiva de vida.
RESPEITO AOS PASSAGEIROS
A artista plástica Ira Camacho, que mora em Laranjeiras e vai de metrô para o trabalho, na Cinelândia, comprou bala de um ambulante para ajudá-lo:
— O desemprego está grande. Eles estão vendendo, não estão roubando.
Artistas independentes, o flautista Gustavo Pereira e o cavaquinista André Menezes têm feito o vagão de palco para tocar sambas e choros diariamente. Sempre com respeito aos passageiros, garantem.
— Como é um ambiente fechado, se alguém se incomodar com a música, paramos — afirma Gustavo, antes de tocar “Carinhoso”, de Pixinguinha.
Os fiscais do metrô nem sempre são cordiais na função de impedir que os artistas se apresentem.
— Já fomos agredidos. É uma pena a falta de sensibilidade, é a nossa forma de pagar as nossas contas — lamenta o músico Juan Muñoz, que integra a banda Misto Quente Trio.
Em nota, o MetrôRio afirma que os agentes são orientados a retirar ambulantes de dentro das composições. O MetrôRio diz que há espaço nas estações Siqueira Campos, Carioca e Maria da Graça para apresentações e que os músicos devem se cadastrar no site do projeto Palco Carioca.

O Globo – 20/05/2017

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