sábado, 4 de fevereiro de 2017

Trans e travestis denunciam preconceito no vagão rosa do Recife


Mulheres da Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans-PE) denunciam que funcionários do metrô do Recife têm impedido que elas utilizem o vagão rosa - exclusivo para o gênero feminino e implantado no último mês de janeiro. Elas contam que na última sexta-feira (27) uma travesti chamada Keila Souza foi convidada por um dos guardas a se retirar do espaço sob a justificativa de que aquele equipamento "não era para ela". A atitude foi considerada uma ofensa que gerou um protesto na Estação Central do Recife, realizado nessa segunda (30). Na ocasião, inclusive, as manifestantes filmaram um funcionário pedindo documentos que comprovassem que elas eram mulheres.

O vagão rosa está em período experimental e funciona exclusivamente para mulheres apenas nos horários do pico da manhã e da noite
"Quando o vagão rosa foi lançado levantei a pergunta no meu Facebook se este serviço garantia a segurança das mulheres e problematizei se mulheres trans e travestis poderiam ter acesso. Uma pessoa respondeu que um representante do metrô garantiu que nós poderíamos usar o vagão normalmente, mas não é o que acontece na prática", comentou Fabiana Oliveira, integrante do Amotrans-PE.

Foi através de Fabiana que a travesti Keila Souza se queixou do constrangimento passado ao ser retirada do vagão rosa. "Ela veio conversar comigo sobre o caso e começou a se julgar por estar de short e blusa curta. Eu disse que eu poderia estar nua que tinha que ser respeitada". Fabiana pediu que a amiga gravasse um vídeo contando o ocorrido para ser postado em sua página pessoal no Facebook.
"Fui barrada no vagão rosa, no dia estava usando um short e blusa curta, pouca maquiagem e cabelo solto. Será que outras travestis e outras trans vão ser barradas no vagão rosa? E eu ainda ouvi comentários de que aquele vagão não era para mim. Eu sou mulher sim. Somos todas mulheres e eu não quero que nenhuma outra sofra o que eu passei", contou Keila Souza no vídeo.
As mulheres da Amotrans, por sua vez, sentiram na pele a reação dos funcionários do metrô do Recife quando decidiram protestar na estação central. Na ocasião, quatro trans e travestis tentaram usar o vagão rosa e foram impedidas de ultrapassar a barreira que separa o público geral das mulheres que desejam usar o novo equipamento. A situação foi filmada pelas manifestantes da Amotrans e os funcionários, que chegaram a pedir documentação, só liberaram a passagem após ver que a ação estava sendo filmada. Confira o diálogo no vídeo abaixo:
"Nós passamos pela barreira porque estávamos em grupo e porque a gente estava gravando. Na hora nem me importei em bater de frente porque estava ali para fazer uma manifestação, mas no dia a dia, quantas de nós não passam por constrangimento. Eu, Fabiana, deixei uma queixa na ouvidoria e a depender da resposta que me derem vou decidir se faço uma denúncia junto ao Ministério Público", disse Fabiana Oliveira.
Questionada sobre a situação, a companhia responsável pelo metrô do Recife se posicionou através de nota oficial: "A CBTU [Companhia Brasileira de Trens Urbanos] Recife esclarece que é contra qualquer ato discriminatório e condena qualquer ação neste sentido. Desde o início da implantação do vagão exclusivo, a empresa atuou e se manifestou publicamente em defesa da maior segurança das mulheres que teriam acesso ao vagão, bem como transexuais e travestis."
Sobre a questão dos funcionários não estarem seguindo as recomendações a empresa respondeu o seguinte: "Diante das informações encaminhadas pela Natrape - Nova Associação de Travestis e Transexuais de Pernambuco à empresa sobre uma atitude desrespeitosa por parte de um dos nossos empregados, viemos informar que o caso será apurado com rigor e que já foi criado um grupo de trabalho que está elaborando uma série de ações para capacitação de pessoal, a fim de evitar que situações como a relatada pela associação voltem a acontecer."

NE 10 – 03/02/2017

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