sábado, 4 de fevereiro de 2017

Polícia investiga morte de rapaz durante abordagem de PMs dentro de trem no Rio de Janeiro


Amigos, vizinhos e parentes da vítima
Matheus Ervandre Benedictes Paredes, de 18 anos, saiu na última sexta-feira de Austin, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, dizendo à mãe que iria com um amigo e a namorada, grávida de quatro meses, visitar uma parente do colega. A doméstica Gilmara Luzia dos Santos Benedicto, de 41 anos, fez apenas um pedido: “Não vá fazer coisa errada, menino”. Ele respondeu: “A senhora tá doida? Sabe que não sou disso”. Foi o último diálogo entre os dois. Na noite daquele dia, enquanto voltava para casa, o rapaz se envolveu em uma briga com um PM, dentro de um vagão de trem. Levou um tiro na barriga e morreu.

De acordo com a Polícia Militar, agentes do Grupamento de Policiamento Ferroviário (GPfer) abordaram Matheus e os amigos por volta das 21h, entre as estações de São Cristóvão e da Central do Brasil. Com o grupo, havia três pequenos frascos de “cheirinho da loló” e um cigarro de maconha, comprados horas antes na comunidade do Jacaré, na Zona Norte do Rio, de onde eles voltavam. A droga acabaria apreendida, como consta no registro de ocorrência feito junto à Divisão de Homicídios (DH). Na especializada, o soldado Anderson Santos Lourenço e o sargento Israel Cunha de Oliveira relataram que Matheus entrou em luta corporal com um deles, o soldado, tentando tomar a arma que o policial portava. Durante a briga, um disparo teria atingido o rapaz.

O amigo que estava com Matheus, menor de idade, conta que os policiais ordenaram que ele deixasse o vagão ainda no início da abordagem. Já a namorada, de 19 anos, única testemunha citada na ocorrência além dos próprios PMs, nega ter presenciado qualquer discussão envolvendo o rapaz. Ela diz que estava de costas, conversando com um terceiro policial, quando ouviu Matheus gritar: “O que é isso, meu senhor! Não precisa disso, não”. O som do tiro chegou enquanto ela ainda se virava, e a primeira visão foi do namorado já caindo, ferido.

— A droga era realmente nossa, estava comigo. Os PMs falaram que nos levariam para a delegacia, mas aí, no meio do caminho, aconteceu isso. Eu não vi briga, não escutei discussão, nada — garantiu a jovem ao EXTRA.

Em paralelo à investigação da DH, um Inquérito Policial Militar (IPM), aberto por determinação do comando do 5º BPM (Praça da Harmonia), a quem o GPFer está subordinado, também apura as circunstâncias do ocorrido.

Por conta dos dentes frontais avantajados, Matheus era chamado de Monicão pelos amigos, que fizeram várias homenagens em redes sociais. O rapaz não tinha nenhum antecedente criminal até o dia em que morreu. Ele completou o Ensino Fundamental em uma escola municipal na Zona Norte do Rio, para onde ia de trem, todos os dias, acompanhando a mãe, que trabalhava como doméstica na região.

— Tenho minha casinha simples, lutei. Só pra criar ele eu vendi 15 anos de férias. A patroa comprava pra não deixar ele aqui em cima. Eu lutei — desabafou Gilmara, mãe de Matheus, antes de cair em lágrimas.

Nas próximas semanas, o rapaz iria iniciar o 1º Ano do Ensino Médio, dessa vez em um colégio estadual perto de casa. Em paralelo aos estudos, recebia R$ 250 por semana para ajudar o pai em obras. O último pagamento, porém, não veio.

— Naquela sexta-feira, ele infelizmente não foi. Até falei: aguarda que vou chegar pra te dar o teu dinheiro. Aí acontece isso — contou o pai, Cláudio Márcio Paredes, de 43 anos, que também trabalha como pintor e bombeiro hidráulico.

Os maiores sonhos de Matheus, contudo, não estavam nem na escola, nem no bico como ajudante de pedreiro.

— Ele ia entrar como paraquedista no quartel. Já tirou a medida da roupa e tudo — lembrou Gilmara.

O Certificado de Reservista guardado pela mãe mostra que a próxima e última etapa da seleção ocorreria no dia 7 de fevereiro. Ele já havia sido aprovado na prova escrita e em avaliações físicas — faltava somente o teste de subida em corda vertical. Em vez do serviço militar, Matheus ingressou no cemitério Carlos Sampaio, em Austin, a dois quilômetros da vizinhança onde passou a vida, enterrado na tarde do último domingo.

Veja, abaixo, a nota enviada pela SuperVia:

“A SuperVia lamenta o fato, ocorrido dentro de um trem que seguia de Belford Roxo para a Central do Brasil. A concessionária ressalta que, de acordo com o contrato de concessão, a segurança pública dentro do sistema ferroviário é de responsabilidade do Governo do Estado, que atua nas estações e trens por meio do Grupamento de Policiamento Ferroviário (GPFer). A Secretaria Estadual de Segurança Pública tem auxiliado no reforço das rondas ao longo do sistema. Além disso, a SuperVia conta com a atuação e o suporte de Policiais Militares contratados dentro do Programa Estadual de Integração de Segurança (PROEIS).”

Extra – 03/02/2017

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