domingo, 19 de fevereiro de 2017

Músicos driblam seguranças e se apresentam no Metrô e na CPTM


Foto Zanone Fraissat
Com voz, violino e bandolim, músicos driblam seguranças e se apresentam dentro de trens do Metrô e da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) na capital paulista. A prática é proibida dentro dos vagões, e só acontece nas estações em eventos autorizados pelas companhias.
"No Metrô nós somos convidados a sair, mas na CPTM os agentes pegam os instrumentos", conta Pablo Nomás, da banda Teko Porã.
Ao entrar no vagão, os músicos penduram uma bolsa numa das barras fixas no teto e logo começam a tocar. Durante a performance, passageiros se levantam e contribuem com notas e moedas.
Todos os membros da Teko Porã vivem da música e dizem que grande parte da renda da banda vem das apresentações sobre trilhos. Eles já foram convidados para fazer um show num festival nas estações da linha 4-amarela e pretendem lançar um álbum em breve.
O pernambucano Lucas Cyrne também vive da música em meio a passageiros. O jovem, que saiu do Recife após terminar o ensino médio, está na cidade desde 2015, quando passou um período em escolas ocupadas. Começou nos vagões com covers de Bob Dylan, mas mostra composições próprias também. Divide apartamento com dois outros músicos que tocam nos trens.
Cyrne é visto com frequência nas estações Chácara Klabin e Vila Prudente (linha 2-verde) dedilhando seu violão. Opta pelos vagões nas extremidades, onde acredita haver menos seguranças.

"No Metrô eu consigo viver bem, mas não com muita grana. Quero tocar na av. Paulista em um futuro próximo, por lá há um retorno maior."
Na linha 3-vermelha, os passageiros que trafegam entre as estações Carrão e Patriarca podem encontrar os músicos da banda Vertical Jungle. Formado pelos músicos Wagner Caetano, Freddy Gomez, Nanne Caetano e Ney Silva, o grupo que se apresenta desde 2015 e já gravou dois clipes.
Wagner e Nanne são irmãos, nascidos em São Paulo. Já Freddy nasceu em Jijoca de Jericoacoara, no Ceará, e Ney em Manaus. Eles se conheceram na praça Roosevelt e compartilhavam o sonho de viver da música.
Com a crise, todos acabaram demitidos dos empregos formais, e decidiram dedicar-se somente aos shows nos vagões. "No início era um hobby, era mais esporádico, depois começamos a gravar nossas músicas, sempre com a ajuda da galera", conta Wagner.
Eles contam que a atuação dos seguranças é menor em relação às outras linhas do metrô. "Não sei como o pessoal consegue tocar com tanta segurança na linha verde", diz Wagner.
Já os músicos Juliana de Deus e Henrique Mendonça fazem parte do grupo Cabaré Três Vinténs, que criou o projeto "Vagão do Jazz". "O ritmo [jazz] surgiu na rua e foi se elitizando. Estamos trazendo o jazz de volta ao espaço público", afirma Juliana. "Certa vez, um dos seguranças se irritou conosco, porque sempre lidamos com a situação com bom humor. Ele achou que estávamos zombando dele", conta.
AUTORIZAÇÃO
O Metrô diz que incentiva a liberdade de expressão e que "espaços para as apresentações gratuitas são cedidos sem custo, mediante cadastro e autorização prévia". Já a CPTM informa que é proibido ligar aparelhos sonoros ou tocar instrumentos musicais que "causem incômodo ou desconforto aos demais usuários".
A companhia diz manter programação cultural com data e local agendados. A Via Quatro, responsável pela linha amarela, afirma que realiza projetos com a Associação Paulista Amigos Arte e que promoveu 43 eventos nos últimos três anos.
Folha de São Paulo – 19/02/2017
Comentário do SINFERP
Se alguém tem alguma dúvida quanto a diferença de cultura gerencial entre Metrô e CPTM, basta acompanhar as declarações e ações das duas empresas diante de um mesmo fato. Para a CPTM, músico erudito, ambulante, assaltante e agressor é tudo igual.

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