segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Trem do Samba Cruz (RJ) busca resgatar o partido alto


RIO — Grande sucesso do paulista Adoniran Barbosa, o samba “Trem das onze”, composto em 1964, é considerado um dos maiores clássicos da música brasileira. Duas décadas depois, por trilhos semelhantes, o rock polifônico do baiano Raul Seixas consagrou o “Trem das sete”. Faltava uma versão musical carioca. O problema foi resolvido em 1995 pelo cantor e compositor portelense Marquinhos de Oswaldo Cruz. Ao melhor estilo da cidade, ele não criou uma canção, mas uma festa: o Trem do Samba. A edição deste ano, sexta-feira e sábado da semana que vem, vai celebrar o centenário deste gênero musical, que tem como marco a canção “Pelo telefone”, de Donga.

O evento chega à 21ª edição consagrado: já está no calendário da cidade e é esperado com ansiedade pelo carioca. Em 2015, atraiu mais de cem mil pessoas. Este ano, a expectativa é ainda maior por causa da data simbólica. Apesar dos indicadores positivos, o idealizador não se permite relaxar: está preocupado com a preservação do samba e a renovação dos artistas. Para isso, quer resgatar uma vertente que considera esquecida, e na qual enxerga maior poder de sedução perante a juventude: o partido alto.

— O gênero tem apenas uma base, que é o refrão. O restante é improvisado pelos rimadores. Atualmente, quando se pensa em rima, o público lembra do hip-hop e do funk, não mais no samba. Estamos trabalhando para a preservação desse patrimônio cultural imaterial. Madureira e Oswaldo Cruz são reservatórios dessa memória coletiva. Não podemos permitir que isso se perca, as crianças precisam conhecer — afirma Marquinhos de Oswaldo Cruz.

Como se fosse um réveillon, o evento terá início à meia-noite de sexta-feira, com uma queima de fogos na estação de Oswaldo Cruz. Para celebrar a chegada do Dia Nacional do Samba, também serão colocados dois bonecos, representando Candeia e Paulo da Portela. A programação continua no fim da tarde, quando os Cortejos Alegres da Memória partem de quatro pontos do bairro em direção à Rua Antônio Badajos 95, onde esperam chegar às 18h30m.

— Neste endereço fica a casa de Dona Esther, matriarca do samba e uma espécie de Tia Ciata do subúrbio. É ainda um ponto de encontro de gerações de sambistas. Nos cortejos, eu e alguns amigos como o Gabrielzinho do Irajá vamos cantar e versar, ao melhor estilo do samba de partido alto. Estaremos acompanhados pelos Senhores da Memória, bonecos gigantes, de até quatro metros de altura, que vão dançando. É o resgate de uma tradição africana que influenciou Olinda (PE) e a Folia de Reis — explica Marquinhos de Oswaldo Cruz.

Os quatro cortejos se encontram e seguem juntos em direção ao Palácio Rio 450 para uma saudação a baluartes como Dona Ivone Lara, Nelson Sargento e Monarco. De lá, partem para a Praça Paulo da Portela, onde esperam formar a maior roda de samba da história da cidade.

A programação só entra nos trilhos no dia seguinte, a partir das 15h, com o início das apresentações no palco Donga, montado na Central do Brasil. No local, será feito o esquenta até a partida do primeiro trem, às 18h04m, mesmo horário de saída do comboio em que embarcava Paulo da Portela. Além de Marquinhos, ele levará as velhas guardas da Portela, do Império Serrano, do Salgueiro e de Vila Isabel, além de jornalistas e artistas convidados.

Integrante da Velha Guarda da Portela, aos 76 anos Tia Surica esbanja vitalidade e é presença confirmada no evento, do qual é uma das entusiastas. Moradora de Madureira e ex-puxadora de samba-enredo, ou intérprete, como preferia dizer o mangueirense Jamelão, a cantora vê o evento como um momento especial de integração entre os sambistas de diferentes agremiações e o público.

— É sempre uma festa muito bonita, que acontece em altíssimo astral e já virou uma marca registrada da cidade. E o Marquinhos merece muito reconhecimento por isso. Eu não perco uma. Este ano, vou me apresentar no palco da Central do Brasil. Depois, vou para a feijoada da Portela e, em seguida, encontrarei todos na Praça Paulo da Portela — afirma a sambista que, uma vez por mês, promove a Feijoada da Tia Surica, a mais famosa do Rio.

Reconhecido como pai do samba, o jongo sobrevive na capital fluminense em um último reduto: o Morro da Serrinha, em Madureira, o mesmo que abriga o Império Serrano. A escola foi fundada na casa da precursora Tia Maria do Jongo, presidente da ONG Grupo Cultural Jongo da Serrinha, uma da atrações que se apresentarão na Praça Paulo da Portela no sábado. Diretora artística da organização, onde também atua como cantora, Lazir Sinval entende que o samba e o jongo têm a missão de defender o legado comum.

— O Trem do Samba promove uma cultura de resistência. Hoje, temos alguns jovens espalhados pela cidade e eles abrem rodas de jongo, mas jongueiros mesmo, só na Serrinha. O evento nos ajuda em nossa missão de difundir o jongo e apresentar esse importante elemento da cultura, que muita gente ainda não conhece — afirma Lazir.

CULTURA DA REVERÊNCIA

No sábado, dia 3, a partir das 18h04m, os trens partirão em direção a Oswaldo Cruz a cada 20 minutos. Em cada vagão, um grupo ou uma roda de samba. As velhas guardas vão na primeira composição, uma mudança recente do evento para oferecer maior conforto aos componentes.

— Em outras edições, os trens partiam cheios e eles dependiam da boa vontade do público para ceder o lugar. Agora eles vão em um trem especial, com todo o conforto e carinho que merecem, pela idade e por todos os serviços prestados à história do samba — afirma.

O primeiro trem fará uma parada especial na estação Mangueira/Jamelão, para o embarque da velha guarda da Mangueira. Atualmente, a plataforma é utilizada apenas para desembarque, mas a organização do evento conseguiu abrir uma exceção com a Supervia para homenagear os baluartes da verde e rosa. O gesto de gratidão remonta à acolhida de Paulo da Portela pela Mangueira em 1937, depois que ele rompeu com a Águia de Madureira pelo veto ao desfile de Cartola e Heitor dos Prazeres no carnaval daquele ano.

— Paulo passou dias na casa de Cartola e foi bem recebido. Depois ele se reconciliou com a escola, da qual foi presidente — explica.

A aproximação entre Paulo da Portela e a Mangueira rendeu o samba “Sala de recepção”, composto por Cartola, que será entoado para homenagear a verde e rosa.


G1 – 02/12/2016

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