terça-feira, 27 de setembro de 2016

Por que o delegado não autuou suspeito de estupro no metrô do Recife (PE)?


Uma sequência de dúvidas cerca a conduta de um delegado da Polícia Civil em relação à apuração de uma denúncia de abuso sexual dentro do metrô do Recife. Acompanhada da mãe, uma estudante de 21 anos prestou depoimento à Central de Plantões da Capital e afirmou que foi apalpada por um homem de 39 anos dentro de um dos vagões. Segundo a vítima, isso já vinha acontecendo nos últimos dias e se repetiu nesta quarta-feira (21). Mas nesta última vez, não aguentou e, chorando, pediu ajuda de segurança da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) para deter o suspeito.

Para a surpresa da estudante, porém, o homem não foi autuado em flagrante. O delegado de plantão decidiu abrir um inquérito e liberou o suspeito, que estava acompanhado de um advogado. Aos jornalistas, o delegado afirmou que o abuso foi praticado na terça-feira, e que, por isso, não caberia mais o flagrante. Na frente dele e de jornalistas, a estudante reforçou que nesta quarta-feira ela também foi apalpada nas partes íntimas pelo mesmo suspeito. Mesmo assim, o delegado não levou em consideração o relato dela e expulsou, aos gritos, dois jornalistas da sala porque os mesmos questionaram a decisão de liberar o suspeito.

Com a repercussão na imprensa, a Polícia Civil agiu rápido e convocou a estudante para prestar novo depoimento na Delegacia da Mulher. Ainda abalada pela situação, a garota teve que relembrar à polícia novamente detalhes do que aconteceu e das perseguições que, segundo ela, vinha sofrendo há duas semanas. A delegada Ana Elisa Sobreira estranhou a conduta do colega de profissão, mas preferiu não opinar. Prometeu, no entanto, que iria apurar as circunstâncias da liberação do suspeito e afirmou que ele poderá, sim, ser indiciado por estupro.

O Departamento de Polícia da Mulher vem realizando um trabalho intenso para combater identificar e prender criminosos responsáveis por abusos sexuais. As delegadas Ana Elisa Sobreira, Marta Virgínia e Inalva Regina são algumas das mais experientes profissionais da área e estão trabalhando incansavelmente para acabar com a onda de estupros que preocupa toda a sociedade. Mas, diante de centenas de casos, é preciso, de fato, que todos os profissionais da área de segurança, seja em qual delegacia for, estejam aptos a receber as vítimas com o respeito que elas merecem.

É preciso que a Chefia da Polícia Civil de Pernambuco oriente melhor delegados, comissários e agentes para que tratem bem as mulheres que procuram ajuda policial, principalmente aquelas vítimas de crimes sexuais, e para que evitem falhas como a que parece ter ocorrido nesta quarta-feira na Central de Plantões da Capital.

E mais: a Secretaria de Defesa Social (SDS) precisa vir a público dar explicações sobre o episódio. É de estranhar a atitude do delegado ao liberar o suspeito com o argumento de que a estudante teria sido abusada no dia anterior e que não havia mais um flagrante. A vítima foi categórica ao dizer que o abuso também aconteceu minutos antes do homem ser detido.

E o mais grave: a jovem denuncia que parte do relato dela sobre o abuso sofrido nesta quarta-feira (21) teria sido retirado do boletim de ocorrência feito na Central de Plantões. É no mínimo necessário que seja aberto um processo administrativo na Corregedoria da SDS para que o caso seja investigado a fundo, afinal são muitas questões sob suspeita.

Jornal do Commercio – 21/09/2016

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