quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Mobilidade enfrenta resistências


A qualidade do transporte público e o tempo gasto nos deslocamentos diários incomodam o paulistano, que tem aprovado cada vez mais medidas como a criação de corredores de ônibus e as ciclovias. No entanto, deixar o carro na garagem ainda é mais uma aspiração do que realidade para a maior parte das pessoas que utilizam o transporte individual como principal forma de locomoção na cidade: 34% dos paulistanos afirmam utilizar o carro como meio de transporte todos os dias, mesmo que de carona ou táxi. Há um ano, esse percentual era de 32%, o que sugere que a adesão não se alterou de forma significativa.
Os dados fazem parte da 10ª edição da pesquisa sobre percepções do paulistano, realizada pelo Ibope Inteligência e a Rede Nossa São Paulo. Foram entrevistados 602 moradores da cidade de São Paulo com 16 anos ou mais, entre os dias 23 de agosto e 1 de setembro. O levantamento, apresentado na semana passada em São Paulo, foi tema de dois debates na Conferência Ethos 360.
Entre os usuários de automóvel, 49% afirmaram que utilizaram o carro com menor frequência nos últimos 12 meses, 27% afirmaram que usam com frequência igual e 22% com maior frequência. E ainda 51% dos entrevistados afirmaram que com certeza deixariam de utilizar o carro se tivessem melhor alternativa de transporte. No ano passado, esse percentual era de 52%. Quando o paulistano diz que está deixando mais o carro em casa, na verdade isso reflete mais um desejo de fazê-lo do que a realidade. Estamos dopados por essa cultura, diz Carlos Aranha, consultor da Rede Nossa São Paulo. Segundo a pesquisa, 60% dos moradores da cidade afirmam ter carro em casa.
Entre os moradores da cidade, romper com a cultura do transporte individual motorizado ainda é uma barreira difícil de ser transposta, embora o estudo mostre que aumenta a aprovação da população a medidas como o aumento da malha cicloviária e dos corredores de ônibus. Se em 2015, 59% apoiavam a construção de mais ciclovias e ciclofaixas, em 2016 o número subiu para 68% dos entrevistados. E 92% dos paulistanos (ante 90% em 2015) apoiam a construção de mais corredores ou faixas de ônibus. Entre os usuários frequentes de carros, a aprovação é de 90%.
No entanto, o nível de satisfação do paulistano com os aspectos ligados à locomoção na cidade é mediano. A satisfação com o transporte público (ônibus, metrô, trem) de maneira geral é de 5,1 pontos, em uma escala que vai de 1 a 10 - quanto menor o número, maior a insatisfação. O item de maior pontuação na pesquisa foi a quantidade de faixas de pedestres, com 5,5 pontos, e os menores índices de contentamento foram com a situação geral do trânsito (3,2 pontos) e controle da poluição do ar (3,5 pontos). A qualidade do ar, aliás, é apontada como o tipo de problema mais grave na cidade por 64% dos paulistanos, afirma Márcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência. O mesmo percentual de pessoas, 64%, afirmou que já teve problemas de saúde no domicílio relacionados a isso.
De carro ou transporte público, gasta-se muito tempo nos deslocamentos diários em São Paulo, o que alimenta a insatisfação da população. Segundo a pesquisa, 33% dos paulistanos gastam entre uma hora e duas horas no trânsito para realizar suas atividades principais (trabalho ou estudo); e 17% dos moradores da cidade gastam entre duas e três horas em seus deslocamentos. Interconectar diferentes modais é um dos caminhos para reduzir o tempo médio dos deslocamentos e para que um maior número de pessoas passe a utilizar o transporte coletivo, na avaliação de Diego Conti, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA) e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
Na prática, já existem opções conectando metrôs a trens, ônibus e bicicletas, mas é preciso desenhar mais alternativas. O rio Tietê, por exemplo, poderia ter balsas transportando pessoas, diz o professor. Conti aponta soluções que podem ser viáveis: o adensamento dos bairros, aproximando moradia dos locais de trabalho e o uso de carros compartilhados (o Rio de Janeiro será a primeira cidade a ter um projeto do tipo).
Valor Econômico – 28/09/2016
Comentário do Sinferp
Bem, ai está mais do mesmo, e com o me-engana-que-eu-gosto de costume, isto é, que as pessoas deixam o carro em casa SE o transporte coletivo melhorar.  Não deixa, e nada tem a ver com a qualidade do transporte coletivo, mas com a valorização do individualismo que o carro promove. Aliás, foi feito para isso: “vá onde quer, como quer, do jeito que quer e quando quer”.  Gente assim não irá ajustar o poderoso ego aos caprichos das determinações do coletivo.  Não se muda isso com “consciência”, mas com limitações cada vez maiores. Mesmo assim, antes de migrar para o coletivo, e individualista passará pela bicicleta, pois continua sendo transporte individual e sobre pneus. Ele quer o meio de transporte "dele". Que seja... Ah, em tempo: mobilidade não é sinônimo de transporte, mas de inclusão. Transporte é um recurso importante para incluir, mas apenas isso.

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