terça-feira, 16 de agosto de 2016

Para lembrar a história dos 65 trens - 28/julho/2013

Alguém sabe nos explicar os números da compra dos 65 trens novos para a CPTM?
Em 6 de março deste ano a Revista Ferroviária informou que a CPTM estava reformulando o edital de concorrência nacional para a compra de 65 trens. A decisão de reformular teria sido adotada após quatro adiamentos de entrega de propostas, e depois que apenas um único consórcio, o Frota CPTM (formado por CAF e Alstom) apresentou proposta, e ainda assim acima do valor de referência do edital, a saber: R$ 23,7 milhões por cada um dos 65 trens, que corresponde a R$ 2,96 milhões para cada um dos 520 carros (cada trem tem 8 carros).

Em 3 de agosto, de acordo com a mesma matéria, o edital para a compra dos 65 trens, agora na condição de concorrência internacional foi lançado no Palácio dos Bandeirantes, com a presença do governador e do secretário dos Transportes Metropolitanos. Um dia antes, porém, ainda segundo a matéria, o presidente da CPTM, em outra cerimônia, disse que a escolha do modelo de concorrência nacional tinha por objetivo incentivar a produção brasileira de trens. Chegou a reputar como “absurdo” o Brasil comprar trens no exterior, sendo  que o país tem cinco fábricas nele instaladas (CAF, Alstom, Siemens, Bombardier e Hitachi/IESA).

Quando da decisão de abrir o edital para o ingresso de concorrentes internacionais, no início do mês de março, o secretário dos Transportes Metropolitanos de São Paulo definiu a maneira como a indústria brasileira se comportou na fase de concorrência nacional como “belicosa, jocosa e estranha”.

O constrangimento do secretário dos Transportes Metropolitanos de São Paulo era compreensível. Afinal, quando ainda acreditávamos que a Frente Parlamentar em Defesa da Malha Ferroviária Paulista poderia trazer algum benefício para o resgate da ferrovia no Estado de São Paulo, estivemos presentes na apresentação do secretário, em encontro da Frente realizado em 22 de março de 2012, onde ele, visivelmente incomodado com o preço obtido pelo governo do Rio de Janeiro na compra dos trens chineses, reafirmou o desejo de comprar trens fabricados no Brasil (em especial da indústria ferroviária transnacional instalada no Estado de São Paulo) em detrimento de trens produzidos na Ásia, embora animado com a participação internacional da indústria da construção civil nas obras do Metrô, em virtude de os benefícios da concorrência, de acordo com ele, além da exigência dos órgãos de financiamento, também internacionais.

Pois bem: da concorrência finalmente internacional, para a compra de serviços de projeto e fabricação de 65 trens, totalizando 520 carros, para as linhas da CPTM foram habilitadas 3 (três) empresas, divididas em DOIS lotes. O primeiro lote para a compra de 30 trens, e o segundo lote para a compra de 35 trens.

Quanto a nossas dúvidas numéricas, surge a primeira delas: por que dividir a compra de 65 trens em DOIS lotes, e com esse número de trens por lote?

Para o lote de número um (1) foram habilitadas as seguintes empresas:

Consórcio IESA/HYUNDAI
CAF 
CHANGCHUN

Para o lote dois (2) foram habilitadas as seguintes empresas:

CAF 
Consórcio IESA/HYNDAI 
CHANGCHUNG

O vencedor do Lote 1 – Consórcio IESA/Hyundai – vendeu para a CPTM 30 trens, de 8 carros cada, pelo valor total de R$ 788.199.216,09. Isso corresponde a R$ 26.273.307,20 por trem, e a R$ 3.284.163,40 por carro. Tal valor não diferencia, em nossa conta, carro-motor de carro-reboque, e serve apenas como referência.

O fato, entretanto, é que os valores a serem pagos ao vencedor do Lote 1 estão acima dos valores de referência da CPTM, definidos em R$ 23.700.000,00 por trem, e em R$ 2.969.000,00 por carro, também sem discriminar se carro-motor ou carro-reboque.

O vencedor do Lote 2 – CAF – vendeu para a CPTM 35 trens, também de 8 carros cada, pelo valor total de R$ 1.011.478.243,33. Isso corresponde a R$ 28.899.378,38 por trem, e a R$ 3.612.422,29 por carro, igualmente sem identificar se carro-motor ou carro-reboque.

Os valores do vencedor também estão acima dos valores de referência da CPTM e, para nossa surpresa, acima dos valores a serem pagos para o vencedor do Lote 1, pelos mesmos produtos, embora em quantidade maior, de onde seria de esperar um preço menor.


Valor de referência CPTM
Consórcio IESA/Hyundai
CAF
Por Trem
R$ 23.700.000,00
R$ 26.273.307,20
R$ 28.899.378,38
Por Carro
R$ 2.969.000,00
R$ 3.284.163,40
R$ 3.612.422,29

Quanto a nossas dúvidas numéricas, surge a segunda delas: sendo uma concorrência internacional, não se apresentou nenhuma empresa estrangeira capaz de atender as exigências técnicas e os valores de referência da CPTM?

Finalmente a terceira dúvida numérica: se tanto o Consórcio IESA/Hyundai quanto a CAF atenderam as exigências do edital, e sabendo que o “menor preço” tem peso na decisão, por que o Consórcio IESA/Hyundai não venceu também a licitação do Lote 2, uma vez que seus preços são inferiores aos da CAF?

Não estamos aqui defendendo esta ou aquela empresa, evidentemente, mas apenas trabalhando com os números disponibilizados no portal da própria CPTM (fac-símile acima)

Poderíamos brincar mais com os números, mas vamos deixar essa atividade para leitores mais qualificados do que nós.


Alguém sabe nos explicar?

2 comentários:

Anônimo disse...

Além de todos questionamentos feitos na época e agora, chama atenção também a CPTM ter escolhido como uma das vencedoras a IESA, que faliu 7 meses depois da concorrência.
Como a CPTM escolhe para um contrato de 800 milhões de reais uma empresa em estágio pré-falimentar? A constatação da saúde financeira e do capital social é um dos quesitos a serem analisados no certame.
Está bem claro que tudo foi feito para tirarem os chineses da jogada, a CAF subcontratou a Alstom para o fornecimento do ATC/ATO.
Enquanto isso, a justiça mandou suspender o contrato de manutenção da série 2100, se isso for conformado a bomba vai explodir no colo do pessoal da manutenção do abrigo Lapa.

SINFERP disse...

Amigo: sobra alguma dúvida da malandragem envolvida nisso? Não, não é? Pois é: não deu em nada na época, e não dará m nada agora.