quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Apreensão de produtos ilegais cresce 49% nos trens de São Paulo


Crise e desemprego fizeram explodir o número de apreensões de produtos vendidos irregularmente.
Com o crescente aumento no número de desempregados na região metropolitana, a CPTM e o Metrô têm tido trabalho para coibir o comércio irregular dentro dos trens que circulam em São Paulo e cidades do entorno.
Neste primeiro semestre, as apreensões cresceram 49% comparando com o mesmo período de 2015. Contados os números de itens recolhidos pelos guardas das estações, a conta é ainda mais impressionante: são, em média, 180 produtos levados nos “rapas” por dia. Nas linhas do Metrô, a alta foi de 16% (veja outros números ao lado).
A alegação para a intensificação do “shopping trem”, segundo a Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos e dos próprios marreteiros, como são chamados os vendedores irregulares, é justamente a recessão.  Os que estão desempregados – 1,977 milhão em maio, 109 mil a mais do que no mês anterior, conforme o Dieese – alegam não ter alternativa para se sustentar. Aqueles que ainda têm emprego formal procuram ganhar um dinheiro extra. O reflexo direto disso são as verdadeiras feiras-livres nas composições, de dia e de noite, na cara dos agentes de segurança. 
O DIÁRIO circulou na quarta-feira (10) em três linhas da CPTM e duas do Metrô e não teve dificuldades em flagrar gente oferecendo bala, amendoim, chocolate, fones de ouvido, água, entre outros produtos de origem duvidosa, que podem  colocar em risco a saúde de quem os consome e prejudicam a economia formal. 
É o caso de Celso Eduardo Passos, de 32 anos, que divide a jornada de trabalho entre o comércio nos trens da Linha 7-Rubi e a cozinha de um restaurante na Avenida Paulista. 
Segundo ele, o dinheiro arrecadado nos vagões entre as estações Barra Funda, na Zona Oeste da capital, e Jundiaí, cerca de R$ 70, é mais do que ele ganha no emprego formal (R$ 50). “Tem muita concorrência, mas de manhã é o horário que mais se vende, então eu consigo tirar um bom dinheiro”, contou.
Dentre as linhas percorridas pela reportagem, a que mais tinha vendedores irregulares foi a 8- Diamante, da CPTM. No trecho entre a estação Barra Funda e Osasco, os ambulantes circulavam juntos e o barulho confundia os passageiros. “Todo dia aparece um vendedor novo aqui”, disse Juliana dos Santos, 18.
Ela vende água e balas de eucalipto de segunda-feira a sábado há três anos. Prestes a terminar o ensino médio, sonha em conseguir fazer faculdade de educação física. 
“Eu saio de Franco da Rocha às 5h e só paro de trabalhar às 15h. Com muito sacrifício, consigo tirar R$ 80 por dia. Quando precisa, eu ajudo a minha família, e o que sobra eu guardo para a faculdade”, explicou.
A jovem contou já ter pulado do vagão em movimento para não ter a mercadoria apreendida, mas admite, de forma geral, a fiscalização é conivente. “A maioria dos seguranças já conhece a gente, então eles fazem vista grossa. Eu não faço o meu trabalho na frente deles e eles fingem que não sabem que eu sou ambulante”, diz, abertamente.
Assim como Juliana, outros comerciantes driblam os guardas e, assim, conseguem se manter por muito tempo nos trens. Nilson Valter, 43, atua há 30 anos nos vagões da Linha 8. Atualmente, oferece capas para documentos. Diz “tirar” de 
R$ 30 a R$ 40 por dia. “Tenho esquizofrenia e ninguém quer me dar trabalho. Recebo auxílio do governo, mas não dá”.
Para não serem pegos, os ambulantes trabalham em grupo, trocando informações. “A gente se conhece e sabe quem são os guardas, mesmo quando  estão à paisana. Temos um grupo no Whatsapp  e quando um percebe o perigo, avisa todo mundo”, revelou Nilson, com o celular na mão.

Análise
Claudemir Galvani, professor de departamento de economia da PUC-SP
Trata-se de um ciclo sem fim

Esse aumento do número de vendedores ambulantes em trens e no Metrô está diretamente ligado à necessidade de sobrevivência de uma parcela da sociedade que está sem renda. Quando há desemprego e essas pessoas não têm como ganhar dinheiro, há uma tendência para que elas busquem profissões mais arriscadas. Eu acredito que esse seja um problema imediato e  o número de vendedores irregulares no transporte público terá uma queda ao longo do tempo, na medida em que a economia vá se estabilizando e as empresas voltem a contratar. É importante destacar que para que não haja esses fenômenos, a política econômica do governo deveria girar em torno da criação de empregos, porque esses empregos significam sustentação de famílias. Desemprego reflete em menos pessoas consumindo e em instabilidade econômica para o país. Trata-se de um ciclo sem fim. Mas é fato que os que não têm renda hoje vão buscar seu sustento na rua.

Depoimento
Renato Martins, ambulante
É só um bico pra eu pagar o carro

Eu tenho de pagar a dívida do meu carro e o salário que eu ganho como líder de setor em uma rede atacadista não é suficiente. Então, eu aproveitei que estou de férias para tentar arrumar uma renda extra. Achei que a venda de chocolates nos vagões dos trens seria uma boa opção, já que vejo muita gente vendendo. Faz uma semana que eu estou nessa vida, ganhando R$ 200 por dia. Em 15 dias já vou ter o suficiente para quitar a minha dívida.

Usuários preferem se arriscar e estimulam comércio perigoso

Mesmo sabendo que a prática é irregular e perigosa, principalmente no caso de alimentos de origem desconhecida, a maioria dos passageiros entrevistados pelo DIÁRIO acaba convivendo bem com as dezenas de ambulantes que todos os dias invadem os trens. Alguns usuários disseram até gostar da presença dos marreteiros, que em alguns casos acabam divertindo os usuários com seu “marketing” peculiar.
“Eles dão uma animada no trem, cantam, brincam, fazem piadas. Não me incomodo e, às vezes, até compro alguma coisa”, disse a técnica de saúde bucal Jaqueline Cristine Santos, 27.
Os passageiros contaram também que, em viagens longas, preferem se alimentar dentro dos trens, mesmo.  “Às vezes eu volto do trabalho com fome e compro chocolate ou amendoim. Gosto porque é prático”, afirmou a diarista Viviane Ferreira, 36.
Já o auxiliar administrativo Waeney Michel, 21, mostra incômodo com o shopping trem. “Eu não compro nada porque não sei se o produto é de qualidade”, disse. A Secretaria de Transportes Metropolitanos informou que a solução para a questão passa também pela conscientização dos usuários no sentido de não comprarem produtos nos vagões.
RESPOSTA DA CPTM E METRÔ
Agentes disfarçados
A Secretaria de Transportes Metropolitanos informou que os seguranças atuam uniformizados ou sem uniforme, fazendo rondas para coibir o comércio ambulante. Quando são pegos, os vendedores são expulsos dos vagões e orientados sobre a proibição a esse tipo de comércio. “As mercadorias são apreendidas e encaminhadas à subprefeitura mais próxima.

Diário de São Paulo – Manoela Matos - 11/08/2016

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