sábado, 23 de julho de 2016

Recuperação dos trens do Rio (RJ) é deixada de lado na Olimpíada


Melhorias no ramal de Deodoro, onde há estações perto dos locais de competição, beneficiariam os 330 mil usuários por dia e atrairiam mais passageiros.
O questionamento do legado da Olimpíada, rebatido com vigor pelo prefeito Eduardo Paes, precisa incluir os investimentos nos trens do Grande Rio. Não só devido ao público que vai a Deodoro, Engenhão, Maracanã e Sambódromo, mas principalmente porque melhorias nos trens da Central beneficiariam os 330 mil usuários por dia do ramal de Deodoro, onde há estações próximas dos locais de competição.

É perto da metade dos 700 mil passageiros de todo o sistema, com malha de 270 quilômetros, 102 estações e presença em 12 municípios do Grande Rio, onde há nove milhões de habitantes.
A SuperVia gastou R$ 250 milhões com a modernização de seis estações para os Jogos. Enquanto isso, a extensão da Linha 1 do metrô Ipanema-Jardim Oceânico consumiu mais de R$ 8 bilhões do estado — um exemplo do quanto a expansão da cidade rumo à Zona Oeste, em vez do investimento na revitalização do Centro, é onerosa para um poder público sufocado pela crise fiscal e, portanto, sem capacidade de investimento.
A recuperação da malha ferroviária tem relação custo-benefício mais vantajosa, com um investimento bem menor do que o de instalar metrô. Além disso, o contingente de potenciais passageiros no entorno das estações supera em muito os 700 mil usuários atuais. São trabalhadores que ignoram o trem perto de casa devido à precariedade do serviço.
Se as linhas de trem do Grande Rio já tivessem sido “metrolizadas” (aumento da capacidade de tráfego com o fim da grade de horário), seguindo o bom exemplo de metrópoles de outros países, milhares de passageiros deixariam de lado ônibus e carros, fazendo fluir melhor o trânsito na metrópole castigada por engarrafamentos. E a extensão do metrô é sempre uma obra que traz transtorno, enquanto a recuperação da malha ferroviária seria incentivo para que regiões da cidade desocupadas servissem de alternativa às favelas, por já terem infraestrutura e serem atraentes pela facilidade de chegar ao trabalho.
O gasto com a extensão do metrô, assim como com a implantação dos 123 quilômetros de BRTs (sendo R$ 6,4 bilhões apenas da prefeitura, sem contar o trecho do Caju ao Centro), no entanto, não pode justificar o adiamento dos planos de revitalização da malha ferroviária. Pelo contrário, deve servir de incentivo, já que, sem a recuperação dos trens, o sistema de transporte do Grande Rio estará incompleto, porque não haverá efetivamente uma integração — conceito elementar, sem o qual não se pode sequer falar em planejamento urbano. Apenas a recuperação dos trens urbanos — que contam com sete estações conectadas ao BRT e cinco ao metrô — permitirá dizer que o legado da Olimpíada no transporte público é acessível, como deve ser, à grande maioria dos moradores do Grande Rio.
O Globo – 23/07/2016

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