quarta-feira, 8 de junho de 2016

Acredite se quiser: antigos bondes do Rio de Janeiro rodam nos Estados Unidos

No depósito da CTC, em Triagem, o funcionário vem com um galão de gasolina, espalha o combustível sobre os bancos de madeira do bonde e risca um fósforo. Em minutos, um inferno de labaredas devora toda a peroba do campo que formava a estrutura do veículo, deixando no chão apenas cinzas e partes metálicas enegrecidas.

A cena brutal, de desperdício ímpar, aconteceu ao longo de 1964 e 1965, os últimos dois anos de Carlos Lacerda como governador da Guanabara. O sistema de bondes do Rio, que já fora considerado pioneiro e um dos maiores do mundo, vinha sendo desativado desde o início daquela década. Antes operada por empresas privadas como a Light, a Cia. Ferro-Carril do Jardim Botânico e a Ferro-Carril Carioca, a rede passara ao controle do estado. Vistos como um entrave para o trânsito e o progresso, os velhos veículos foram aposentados na marra após seis décadas de serviços prestados. A ordem era substituí-los por uma frota de trolley-bus — ônibus elétricos importados da Itália — e, paulatinamente, sepultar seus trilhos sob mantas de asfalto.

Para abrir espaço nas garagens, o coronel Manuel Moreira, da diretoria industrial da CTC (a Companhia de Transporte Coletivos do Estado da Guanabara) encontrou o que dizia ser a “única solução”: queimar os bondes e vender a sucata de metal a peso para a Companhia Siderúrgica Nacional. Cada veículo incinerado rendia, em média, duas toneladas de ferro e 800 quilos de cobre. E assim, pouco a pouco, centenas desses veteranos veículos rodaram para o corredor da morte, alguns por seus próprios meios.

Operação resgate

Ao saber do massacre, um grupo de americanos entusiastas dos transportes sobre trilhos decidiu que algo deveria ser feito. Nos Estados Unidos, os arejados modelos com laterais abertas (chamados por lá de “Narragansett”, “breezers” ou “summer cars”) eram considerados relíquias que precisavam ser preservadas. Esses bondes, que ainda rodavam pelo Rio na década de 1960, tinha parte mecânica e elétrica de origem americana, fabricada por empresas como a J. G. Brill nos anos 1910 e 1920. Apenas suas “carrocerias”, digamos, eram feitas aqui, pelas próprias empresas que operavam os veículos.

Comandada por Paul Class e Louis J. G. Buehler, a missão da Associação dos Museus de Carris dos Estados Unidos chegou à cidade para resgatar o que fosse possível. Por módicos US$ 1.200 (o equivalente a US$ 9.100 nos dias de hoje), conseguiu comprar da CTC 12 bondes selecionados a dedo por sua variedade e raridade. Aos poucos, os veículos foram levados de navio para os EUA, onde alguns deles rodam até hoje em passeios promovidos por museus.

Esses “exilados” são os únicos dos antigos bondes do Rio que sobreviveram ao fogo (não incluindo os modelos de Santa Teresa, bem menores e com bitola mais estreita que os que circulavam no resto da cidade). De resto, o governo da Guanabara não se interessou em guardar sequer um exemplar para as futuras gerações.

“Resumo da história: quem quiser ver como era um bonde da Light tem de ir aos EUA”, sugere o pesquisador Helio Ribeiro, no site Bondes do Rio.

Soa como ironia nesses tempos em que o bonde — agora com o prolixo nome de “veículo leve sobre trilhos” — é visto como solução limpa e moderna para a mobilidade no centro da cidade.

Linha Catumbi-Pensilvânia

— Nossos dois “Narragansett” cariocas estão em uso e continuarão operando por muito tempo — afirma Terry McWilliams, diretor da Midwest Electric Railway, em Mount Pleasant, Iowa.

Lá, os carros rodam por um circuito turístico com seis estações. Recentemente, o bonde número 1779 voltou a ser pintado no mesmo verde-escuro dos tempos em que circulava no Rio.

Não falta imaginação para manter os velhos veículos em ação. O bonde 441, que já levou passageiros pelo Catumbi e pela Ilha do Governador, hoje cruza as ruas de Middletown, Pensilvânia, atrelado a um gerador a diesel. Foi a solução que o Middletown & Hummelstown Museum encontrou para promover passeios esporádicos (o próximo será em 29 de julho) em uma cidade sem rede aérea de energia elétrica.

Desde que desembarcaram nos EUA, em 1965, alguns dos bondes cariocas já pararam em vários “pontos”. É o caso do carro número 1758, que esteve em três museus da Flórida até chegar a seu atual lar, na cidade de Washington, na Pensilvânia.

— Este bonde veio para cá em 2006 e investimos 10 mil horas de trabalho voluntário em sua restauração. Ficou pronto em 2011, ano de seu centésimo aniversário e, desde então, é um dos carros preferidos pelos visitantes em dias de calor — conta Scott Becker, diretor executivo do Pennsylvania Trolley Museum.

Original até no cheiro

Outro bonde carioca, também pintado de amarelo, é o 1875. Até 2014, esse exemplar era figura fácil nos trilhos de Rockhill (também na Pensilvânia). Impecavelmente conservado, o veículo espera novas rodas, rolamentos e outros componentes do truque e do motor, que, após um século de uso, chegaram ao limite de desgaste.

— Isso nos custará alguns milhares de dólares e estamos em busca de um patrocinador — diz Matthew Nawn, um dos diretores do museu Railways to Yesterday.

Imagine o que é chegar a East Windsor, uma cidadezinha de 12 mil habitantes no estado de Connecticut, e deparar-se com um bonde verde-escuro da Light a exibir o destino “Rio de Janeiro” em seu letreiro. Trata-se do carro 1850, exemplar que conserva o maior grau de originalidade entre os que foram salvos pelos americanos.

— Até pouco tempo, ele tinha um forte cheiro de café, resquício do navio que o trouxe para os Estados Unidos — diverte-se Aiden Nies, do Connecticut Trolley Museum.

Apesar de estar em condição de funcionamento, o 1850 descansa fora de serviço, à espera de uma restauração estética. O mesmo museu é dono do carro 1887, que hoje serve como doador de peças ao “irmão”.

Já o 1794, que em seus bons tempos rodou pelo Alto da Boa Vista, hoje pertence à MATA, a companhia de trânsito de Memphis, Tennessee. Foi extensamente modificado ao longo dos anos, e hoje é um bonde fechado. Rodava pela principal linha da cidade até ser guardado, em junho do ano passado, quando o sistema foi suspenso por falta de segurança. Promete-se que, em breve, a rede atenderá aos requisitos para voltar a funcionar.

Decadência e renascimento

Um dos maiores conhecedores da história dos nossos bondes é o americano Allen Morrisson, que, em 1989, publicou o livro “The tramways of Brazil”.

Para ele, as décadas de 1920 e 1930 foram as melhores fases dos bondes no Rio. Aí, para evitar inflação, o governo impediu que a Light aumentasse as passagens, levando à decadência do sistema a partir dos anos 40.

— Nos EUA, a General Motors comprou as redes de bondes e os substituiu por seus próprios ônibus. No Brasil do pós-guerra, fábricas estrangeiras vendiam barato seus ônibus — lembra Morrisson. — A ideia de combater a poluição sequer existia, e acabaram com um sistema de transporte emissão-zero. Quando o mundo percebeu o que tinha feito, era tarde demais.

O autor está entusiasmado com o novo VLT Carioca.

— Acho que os brasileiros não têm ideia do raro que é, hoje, pôr novos trilhos de bonde nas principais ruas do centro. É realmente incrível, revolucionário e muito corajoso. Esse projeto merece atenção internacional.


O Globo – 08/06/2016

2 comentários:

Luiz Carlos Leoni disse...

Esta parte final do texto em que um norte americano é um dos maiores conhecedores da história dos bondes no Brasil já tendo publicado um livro é uma perola, já tinha lido alguma coisa também do Filomeno quando contou a história de um alemão que chorou quando viu uma locomotiva restaurada que ele tinha conhecido na infância.

Decadência e renascimento

Um dos maiores conhecedores da história dos nossos bondes é o americano Allen Morrisson, que, em 1989, publicou o livro “The tramways of Brazil”.

Para ele, as décadas de 1920 e 1930 foram as melhores fases dos bondes no Rio. Aí, para evitar inflação, o governo impediu que a Light aumentasse as passagens, levando à decadência do sistema a partir dos anos 40.

— Nos EUA, a General Motors comprou as redes de bondes e os substituiu por seus próprios ônibus. No Brasil do pós-guerra, fábricas estrangeiras vendiam barato seus ônibus — lembra Morrisson. — A ideia de combater a poluição sequer existia, e acabaram com um sistema de transporte emissão-zero. Quando o mundo percebeu o que tinha feito, era tarde demais.




O autor está entusiasmado com o novo VLT Carioca.




— Acho que os brasileiros não têm ideia do raro que é, hoje, pôr novos trilhos de bonde nas principais ruas do centro. É realmente incrível, revolucionário e muito corajoso. Esse projeto merece atenção internacional.

SINFERP disse...

Gratos pela relvantes e importantes informações, como sempre. Nós também torcemos muito pelo sucesso do VLT do Rio de Janeiro, na certeza que servirá como garoto propaganda para o modal no retante do país. Enquanto isso São Paulo empacado no monotrlho...