segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Trens do subúrbio de Salvador (BA) resistem à degradação

Marco Aurélia Martins
Às 5h45,  enquanto muita gente ainda dorme, Wilson Cruz, 53, realiza a  primeira viagem do dia. Aos olhos do condutor de trens do subúrbio ferroviário de Salvador,  na profissão há 26 anos,   o trajeto de 13 km entre a  Calçada e Paripe já não oferece novidade.

Quem faz o percurso pela primeira vez, no entanto,  impressiona-se com o que vê. O passeio transita entre o bucólico e a degradação.

O conserto de barcos na praia, o cozimento a lenha à margem dos trilhos e a vista da baía conferem o clima agradável. Por outro lado,  construções precárias,  lixo amontoado, desmanche de carros,   moradores de rua e a poluição do mar alertam para os problemas.

Na plataforma de embarque da Calçada, uma amostra da Maria Fumaça  figura entre os novos trens, já não tão novos assim. "Esse aqui é o melhor transporte  do mundo. Não tem quebra-molas, engarrafamento ou poluição. Mas eles preferem o rodoviário. Não dá para   entender!", observa o maquinista, como é popularmente chamado.

Wilson Cruz conta que entrou no ramo por  acaso: "Estava a caminho de uma entrevista de emprego para uma cervejaria, me atrasei e perdi a vaga. Então, vi no jornal A TARDE  que havia um concurso para a área. E aqui estou".

Degradação

Em todo o trajeto, principalmente no trecho até o Lobato, a linha férrea acumula muito entulho. Eletrodomésticos velhos, como fogão, sofá, estante, TV e até geladeira são descartados na margem da ferrovia.

Ao lado do trilho, um monte de barro se acumula, segundo Wilson, oriundo de escavações  para a construção de casas. "O lixo é um problema. Às vezes,  engancha no trem, tem que parar a composição para fazer manutenção. O que prejudica os usuários", conta.

O coordenador de operações da Companhia de Transporte da Bahia (CTB), Al Mello, diz que o acúmulo deve-se à falta de consciência dos moradores do entorno. "Eles sabem que, a cada 15 dias,  fazemos mutirão com o trem, recolhendo  lixo. Por isso, atiram os sacos da frente de casa. Nem se dão ao trabalho de procurar o ponto correto de descarte", diz.

"Não somos uma empresa de limpeza, mas de transporte. Não temos condição  nem é nossa responsabilidade recolher resíduos diariamente", complementa.

Outro problema, relatado pelo passageiro Antônio César, 50, é a insegurança. O aposentado utiliza o trem três vezes por semana para ir ao centro de fisioterapia das Obras Sociais Irmã Dulce, no largo de Roma.

Ele conta que, há dois meses, foi vítima de  assalto dentro de um dos vagões, por volta das 15h. "Dois pivetes entraram e fizeram um arrastão. Um rapaz foi agredido. Não havia segurança. Se  ocorre isso à tarde, imagina à noite", relata.

Al Mello afirma não ter informações sobre a ocorrência de assaltos no TUE (Trem Unidade Elétrica). "É muito difícil ocorrer, porque dispomos de segurança em cada uma das dez estações e em cada trem", diz.

Capacidade

O Sistema de Trens do Subúrbio transporta 15 mil pessoas por dia, com duas composições. Se contasse com  quatro trens em circulação, 50 mil passageiros seriam beneficiados diariamente.

O intervalo de espera é 40 minutos, mas, frequentemente, um dos veículos é tirado de circulação e o tempo aumenta para uma hora.

Sem se identificar, funcionários queixaram-se de três trens reformados, que permanecem no galpão sem nunca ter sido utilizados. O coordenador  de operações da CTB explica que os TUEs foram reformados, por uma empresa no Rio de Janeiro, mas continuaram  com defeito. "O caso está na Justiça desde o ano passado. A empresa foi considerada inadimplente", justifica.


A Tarde – Priscila Machado - 24/08/2015

4 comentários:

Pregopontocom Tudo disse...

Com relação aos 3 TUEs "reformados" que estão parados: Foram enviados o Rio de Janeiro,pelo ex prefeito de Salvador quando a empresa era a CTS administrada pela prefeitura da cidade, para uma empresa,dita nova e sem experiência no ramo,09 carros motrizes ACF/GE para serem modernizados e transformados em 03 composições cada uma com 03 carros.Usou-se o mesmo padrão dos Thoshibas doados pela CPTM em 2007 a CTS,com um único carro motriz central,ao contrário do padrão dos ACF/GE que operam com 02 caros motrizes em cada ponta.Desde que aqui chegaram apenas uma das composições fez algumas poucas viagens de testes mais sempre apresentou problemas e nunca foi possível coloca-la em operação comercial,inclusive uns dos problemas é o funcionamento do ar condicionado adaptado comprometido por problemas no conversor de energia.Não há a menor possibilidade de operar o trem sem o sistema de climatização pois as janelas de vidro são lacradas além disso parece que utilizaram vidros de janelas de "Kombi" de tão pequenos que são,dando a impressão de janelas de um avião.Todo o dinheiro gasto pela administração anterior da Prefeitura quando os trens ainda estava sobre a sua responsabilidade foi em vão,os trens nunca funcionaram,já apresentam sinais de corrosão e desgaste, servindo apenas para ocupar espaço em um dos galpões das oficinas da atual CTB.

SINFERP disse...

Tudo bem, Pregoponto, mas a matéria fala do entorno. Do abandono do entorno.

Pregopontocom Tudo disse...

A CTB faz a limpeza permanente da via recolhendo o lixo com uma composição de manutenção,uma maquina diesel/elétrica e uma prancha,o problema é muito antigo desde quando permitiram a construção de casas próximas a via permanente,o sistema foi se degradando ao longo do tempo sem modernização e renovação de frota a partir da extinção da antiga RFFSA,passando pela CBTU.Os últimos TUEs novos,ACF/GE, chegaram aqui em 1962,e os Toshibas,de 1948,que vieram de SP em 2007,já chegaram cansados de guerra .....

Paulo Lima disse...

Quem sabe, com a implantação do VLT. Todo esse trecho passar por revitalização? Esperamos que sim! Eu vi o desenho do projeto na internet(fazendo pesquisas), muito bonito o desenho da maquete. Além do VLT no lugar dos atuais trens, todo trecho e o trilho, vai ser transformado urbanisticamente (até os trilhos serão cobertos com pisos de bloquetes e outros trechos com gramas, para ficar parecido com VLTs Europeus) e prevê reconstrução das estações, e até os prédios antigos que beiram a linha férrea serão restaurados e alguns galpões que era da antiga RFFSA (Fede Ferroviária Federal) poderão ser restaurados (se dor histórico) ou demolidos.
Se realmente todo esse trecho for transformado com a vinda do VLT, vai ser um grande presente para Salvador.