sábado, 29 de agosto de 2015

Do bonde ao ônibus: o início do transporte coletivo de Terezinha (PI)

Foto Wilson Filho
Hoje, aos 163 anos, Teresina é uma cidade que possui 123 bairros e 840 mil habitantes. Mas para chegar ao seu porte atual, muitos caminhos foram percorridos. Ao longo do tempo, as ruas se cruzaram e se multiplicaram conforme a população, a migração e a importância da capital piauiense cresciam. Da mesma forma, a necessidade de se deslocar pelo espaço público de forma rápida e segura ficou latente, quando os quarteirões se expandiam em número para além das quadras projetadas e umbilicalmente ligadas ao rio Parnaíba. 

Por falar nele, vem do Velho Monge o primeiro veículo de transporte coletivo, ainda que intermunicipal: a barca, que no século XIX fazia o trajeto Floriano – Parnaíba e parava nas cidades ao longo do rio. 

Entretanto, em terra firme, a primeira iniciativa de transportar a população de forma coletiva surgiu 75 anos depois da fundação da cidade, e veio sobre trilhos. Não, não foi o trem. Ele só chegou em 1938, mesmo com a estação lhe esperando, prontinha, desde 1926. Em 1927, os teresinenses começaram a se locomover de bonde. 

O trecho era pequeno, é bem verdade: cerca de três quilômetros. Contemplava a Rua Grande, atual Álvaro Mendes até a estação do trem, na atual Miguel Rosa. A historiadora Mary Lucia Carvalho, que escreveu o livro “O ônibus só sai depois que estiver cheio”, que trata do transporte urbano em Teresina entre as décadas de 1930-1960, conta em sua obra, a partir de relatos de jornalistas da época e de trabalhos de estudiosos do tema, como os professores Francisco Alcides do Nascimento e Pedro Vilarinho Castelo Branco, que o veículo nasceu para atender os anseios da elite. 

“Nos anos 1920, nós só tínhamos dezoito quadras (de extensão) na cidade. Se você contar a partir da praça da Bandeira até a Miguel Rosa, são exatamente dezoito quadras. E poucas ruas tinham calçamento. A Inspetoria Federal (órgão responsável na época) mandou fazer os trilhos em meio a muita areia. Havia muitos descarrilamentos”, relata.

De acordo a estudiosa, relatos dos jornais dão conta que o bonde transportava estudantes e trabalhadores sempre pela manhã, mas aos domingos, funcionava durante todo o dia, como um divertimento para a população. O passeio no veículo era ainda uma recompensa para as crianças que se comportavam durante a semana. 

A demanda pelo transporte acabou fazendo com que fosse necessário ampliar o número de assentos, que veio com o Rebocado, uma extensão acoplada ao bonde, que acabou trazendo um fator paradoxal: ao mesmo tempo em que podia ser utilizado por ricos e pobres, as classes tinham seus espaços diferenciados, assim como o valor das passagens não era igual e dependia do local onde o passageiro ficava. 

“Segundo o Ogmar Monteiro, em suas memórias, havia essa diferenciação de os pobres ficarem atrás (no rebocado) e até a questão comportamental. Nos ônibus, nas décadas seguintes, a gente também percebe isso”, diz Mary Lúcia. A diferenciação também se dava pelas vestes e na forma de se portar, como explica Pedro Vilarinho, em trecho reproduzido no livro da autora. 

Dois anos depois de idas e vindas, com a diminuição dos usuários e os problemas da máquina, o bonde foi desativado e posto à venda pela Intendência Municipal no dia 26 de novembro de 1929. 


Cidadeverde.com – 27/08/2015

Um comentário:

Paulo Lima disse...

Se essa reportagem conhecesse o que é um VLT. Talvez não falaria o fim dos Bondes para o ônibus. Isso mostra que esse Editor do Jornal do Piaui, nem conhece o que é um VLT, e acha que os ônibus naturalmente substituiu de boa os Bondes. Ahh, essa pessoa que escreveu o Jornal, nem pesquisou mais profundo o porque na real situação, que levou de vez o fim dos bondes. Se ele pesquisar mas profundo as histórias, que envolveu muitos interesses rodoviaristas para por o fim dos Bondes e Trens de Passageiros em todo país, acho que ele vai ficar chocado e nem terá que alongar ainda mais essa matéria. Ou a não ser, que ele seja proibido de falar mais verdades da real situação que "há lobby forte contra os trilhos" para não ser mandado embora do Jornal, porque todo mundo sabe que essas mídias de horam são "chapa brancas" que além de defender o governo corrupto, defendo a atual situação do "mando e desmando" do lobby rodoviarista.