sábado, 25 de julho de 2015

Estações ferroviárias que resistem ao tempo e à depredação (RS)

Foto Ronald Mendes
Após 18 anos da privatização da ferrovia, a maioria das estações da RFFSA padece ou foi destruída. Poucas são usadas.
Todas Elas nasceram a partir do fim do século 19 e foram se espalhando pelos rincões do Estado à medida que as estradas de ferro iam cortando nossos pagos e levando progresso a vilas e cidades do interior. Por décadas e décadas, Elas presenciaram o vaivém dos trens que levavam e traziam pessoas, cargas, prosperidade e sonhos. Elas ouviam diariamente o apito das locomotivas, o burburinho de gente que falava não só o português, mas línguas das mais variadas. Quando as marias-fumaças paravam, Elas se preparavam como mães para receber seus filhos de braços abertos ou choravam junto com as famílias nas horas de despedida. Elas eram ponto de encontro e o centro nevrálgico de muitas cidades e vilas.

Mas o que houve com Elas? Infelizmente, o trem da história e do progresso partiu. Foi sumindo ao longe, ano após ano, e levando embora o calor das pessoas. As marias- fumaças, o Minuano e o Húngaro deixaram saudades. Ficaram o silêncio, o frio e a solidão, afinal, os trens de hoje não transportam corações nem emoções, apenas cargas.
Mas a maioria delas ainda resiste e, como toda mãe, espera o retorno de seus filhos e clama por um afago. Algumas já morreram, outras foram parar no asilo do esquecimento ou são até maltratadas. Pouquíssimas conseguiram manter a jovialidade e sentir a presença constante e os agrados de seus netos e bisnetos.
Mas quem, afinal, são Elas? Dou uma pista. Essas senhoras não são mulheres de carne e osso. Elas foram feitas de tijolos, concreto e madeira, mas foram tão generosas que deixaram saudade em muita gente.
– Até hoje, tem ex-ferroviários que chegam aqui, se emocionam e até choram ao lembrar daquele tempo – diz Rodrigo Neres, coordenador de Cultura de Santiago.
Rodrigo trabalha na Estação do Conhecimento, um espaço cultural que deu vida nova a uma dessas senhoras. Nascida em 1935, a Estação Ferroviária de Santiago ainda se sente jovem. Ficou um brinco, de tão linda, após a revitalização completa feita a partir de 2009, que acabou sendo inaugurada em 3 de janeiro de 2011. Desde lá, ela se enche de orgulho de receber crianças e adultos para contações de histórias, cursos dos mais variados e atividades culturais. Todas essas pessoas preencheram o vazio que os passageiros de trens deixaram.
Mas nem todas tiveram o mesmo final feliz. Muitas das estações ferroviárias acabaram sendo destruídas, depredadas ou abandonadas.
– Foi um crime. Imagina você construir uma casa e, por qualquer motivo, tem de ir embora e a deixar alugada. Daí, uns anos depois, você volta e não vê mais a tua casa ali. Esse é o sentimento que a gente, como ferroviário, tem – comenta Victor da Conceição Neto, 59 anos, que era agente de estação e hoje tenta resgatar a história delas por meio da Associação dos Amigos do Museu Ferroviário de Santa Maria, que mantém um pequeno acervo em uma das salas da estação.
As portas e janelas da estação ferroviária de Santiago estavam lacradas com paredes de tijolos no início dos anos 2000 (foto à esq.), para evitar a depredação. Em 2001, o então secretário de Planejamento e atual prefeito, Júlio Ruivo, teve a ideia de assumir e restaurar o prédio para transformá-lo num centro cultural e de memória ferroviária. Só em 2009 foi possível começar a obra de restauração do prédio, que foi reinaugurado em 2011, com o nome Estação do Conhecimento.
Desde então, o local oferece aos visitantes um memorial com a história da ferrovia e outro que traz detalhes dos poetas de Santiago, como Caio Fernando Abreu e Tulio Piva. A estação recebe, por ano, 6 mil crianças de escolas, que vão para atividades como contação de histórias, oficinas de arte e sessões de cinema. Quando não são as crianças, há jovens e adultos fazendo cursos.
Em frente à estação, no largo, são realizados dois grandes eventos: o Carnaval e a Feira do Livro. Por ter revitalizado a região e a memória ferroviária, tornando o local mais seguro e difundindo cultura, a Estação do Conhecimento se tornou referência no Estado e no país em eventos e premiações. Hoje, prefeitos de outras cidades visitam Santiago para se inspirar no projeto de sucesso, e ferroviários voltam para ver que a história de ferrovia é bem respeitada por lá.
– É vital manter esse legado dos trens e o prédio, pois a história da cidade está ligada à ferrovia. Quando a estrada de ferro chegou aqui, em 1935, gerou progresso econômico, educacional e cultural, visto que vieram para cá profissionais de outros Estados e países. Depois da ferrovia, a cidade cresceu, surgiram clubes, cinemas. Precisamos contar para as crianças que não vivenciaram a história dos trens a importância que eles tiveram para a cidade – conta Rodrigo Neres, coordenador de Cultura de Santiago.
As ferrovias chegaram à região e a Santa Maria em 1885 e seguiram em direção à Uruguaiana nos anos seguintes. São dessa época boa parte das estações ferroviárias do centro do Estado e da Fronteira. As últimas foram construídas em 1935, como a de Santiago. Ao todo, na região, de Santa Maria até Cruz Alta, Cachoeira do Sul, Unistalda, São Gabriel e Rosário do Sul, havia mais de 50 estações de grande, médio e pequeno portes. ]

A maior parte das estações está em ruínas ou foi totalmente destruída. Até as poucas que seguem sendo utilizadas precisam de reformas, pois estão tomadas por goteiras e cupins. Muitas foram cedidas a prefeituras. O “Diário” foi até algumas para mostrar em que situação se encontram hoje.
As estações, locomotivas e vagões com valor histórico foram repassados, por lei de 2007, para a responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que tem cedido as estações a prefeituras e instituições interessadas. Para isso, os prefeitos precisam enviar ofício e um projeto de resgate cultural e histórico que justifique a cedência dos prédios.

Diário de Santa Maria – Deni Zolin - 11/07/2015

Nenhum comentário: