segunda-feira, 15 de junho de 2015

Um exemplo triste de abandono (SP)

Foto Cláudio Vieira
Após décadas de degradação, estações ferroviárias do Limoeiro, Eugênio de Melo e Martins Guimarães precisam de R$ 1,6 milhão para serem recuperadas; presidente da Fundação admite: não existe verba.

João Ferreira da Silva, 55 anos, ainda se lembra do cantinho em que a mãe o deixava sentado enquanto dançava forró no salão da Estação Ferroviária Limoeiro, na região leste de São José dos Campos.

“Era bem ali”, aponta ele para uma parede suja e descascada, exemplo do abandono que tomou o imóvel.

Silva sabe bem do que está falando. Ele literalmente mora na estação abandonada há sete anos, tendo feito ali uma janela e colocado portas usando madeira velha.
O prédio, que já foi da extinta Rede Ferroviária Federal, é de responsabilidade da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, de São José, e preservado pelo Comphac (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico, Paisagístico e Cultural) do município. 
Ao lado das estações ferroviárias de Eugênio de Melo e Martins Guimarães, todas na região leste da cidade, a de Limoeiro também precisa ser restaurada. Juntos, os três prédios precisam de R$ 1,6 milhão para serem recuperados.

A condição dos prédios é o maior exemplo de abandono do patrimônio histórico em São José. Ao longo de décadas, lembra o historiador Douglas Almeida, os imóveis foram sendo deixados de lado e trocando de proprietário. O último capítulo pode ser a degradação completa.

“É preciso maior cuidado com esse patrimônio para que a história da cidade não seja perdida”, diz Almeida.

Silva transformou o antigo setor para de venda de bilhetes na estação de Limoeiro em sua casa. Ele diz que, se não tivesse ocupado o prédio, o lugar já tinha sido devastado.

“Se não tivesse feito isso, acho que o pessoal já tinha colocado fogo. Tinha gente que usava drogas e fazia sexo aqui dentro”, conta.
Alcemir Palma, presidente da FCCR, entidade que assumiu a administração dos três prédios em 2013, diz que não tem recursos para a restauração. “Temos que batalhar na iniciativa privada”, afirma.

A estação Central, que fica na Vila Maria e precisa ser restaurada, é alvo de uma negociação entre o Ministério Público Federal e a MRS Logística, que a utiliza. O VALE apurou que as partes estão chegando a um consenso sobre a reforma.

Colecionador. “Dói na alma”, resume o mecânico Ernesto Paparelli, 35 anos, ao olhar a condição de abandono das estações ferroviária da cidade.

Colecionador de miniaturas de trens, com cerca de 400 peças em casa, ele guarda objetos da época em que as ferrovias eram o transporte mais utilizado no Vale do Paraíba.

Tem um bilhete dos anos 1960 para uma viagem entre Cruzeiro e Lorena, no trem regional que cruzava o Vale.

“Infelizmente, o Brasil não tem história. As futuras gerações não vão saber o que era uma ferrovia. Como comprar o lendário biscoito Jacareí, que vendiam nas estações”, disse.

O Vale – Xandu Alves - 14/06/2015

2 comentários:

Lucas disse...

Obrigado SINFERP por postar.

Na verdade, é um milagre essas estações menores de São José dos Campos ainda estarem de pé. A mais antiga é de 1894! Em Taubaté, por exemplo, só sobrou a estação central, as outras nos bairros já não existem mais.

Há anos falam em restaurar essas estações, transformá-las em museus ou bibliotecas, mas até agora nada. Pensei até que entrariam no projeto do finado VLT e seriam usadas para o transporte de passageiros novamente, como fazem na Europa. Mas aqui no Brasil, essas ideias ficam só na imaginação da gente mesmo.

SINFERP disse...

É de doer, Lucas. Se você sair por ai perguntando quem deveria zelar por esse patrimônio histórico, descobrirá que é o Dnit. Se, porém, perguntar para o Dnit, saberá dele que ainda não tem o inventário desse patrimônio. É a esculhambação geral e irrestrita com a a memória e história ferroviária.