quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Moradores de Areias (PE) pedem trem de passageiros

A terceira reportagem da série sobre o patrimônio ferroviário de Pernambuco mostra o Ramal Werneck, no Recife. Famílias do bairro gostariam que os trilhos fossem ocupados com transporte público.

A primeira estrada de ferro do Nordeste e segunda do Brasil foi inaugurada em Pernambuco, no dia 8 de fevereiro de 1858, ligando o Recife ao Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana. É dessa ferrovia que parte o Ramal Werneck, usado para levar locomotivas (agora VLTs) até a oficina de consertos da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), em Areias, Zona Oeste da capital.

Com seis quilômetros de extensão, a linha começa em Boa Viagem, segue pelo Ibura e termina em Areias. Saindo do pátio de manutenção, o Ramal Werneck circula pelas Ruas José Natário e Dona Ana Aurora, cortando as Avenidas Doutor José Rufino, Dom Helder Camara (Ibura) e Mascarenhas de Morais (Imbiribeira), perto do aeroporto. É o VLT convivendo com outros modais.

Aqui e acolá, passa um VLT para a oficina, geralmente no começo da manhã. No restante do dia, o ramal não funciona. Mas houve um tempo em que o movimento era intenso na linha, como recordam moradores antigos da Rua Dona Ana Aurora, em Areias. “Vinha muito trem entregar carga na Sanbra (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro, empresa exportadora de algodão e fabricante de óleos). Nunca foi trilho de passageiros”, conta Hosana Maria Paes da Costa, 65 anos, dos quais 60 no bairro.

Era a época das casinhas de taipa, recuadas no terreno e de propriedade da Rede Ferroviária. Severina Souza Silva, 64, mora numa delas desde os 11 anos. Quando era menina, gostava de espiar os trens que levavam mamona à Sanbra, pelos buracos nas paredes de taipa. “Tinha um portão enorme junto da minha casa, para o trem passar”, diz ela.

Trilhos dessa antiga área da empresa estão debaixo da atual moradia de Severina e de outras residências da Rua Dona Ana Aurora, todas reformadas. “No começo, a Rede não deixava a gente levantar casas de tijolos. Se alguém construísse, vinha um funcionário e pedia para derrubar. A pessoa refazia de taipa e não tinha problema”, relata.

Ela passou pela situação quando um dos irmãos, pedreiro, fez um rodapé na frente da casa, para substituir a cerca. “Ficou tão bonito, mas aí o trem parou e o funcionário perguntou quem fez. Eu respondi, mandaram tirar e refazer o muro de mato”, recorda a moradora, sorrindo ao lembrar do passado.

Vasculhando a memória, Severina destaca a cordialidade de maquinistas que conduziam locomotivas até a Sanbra, com o povo. “Eles viam fraldas penduradas no varal e perguntavam: tem menino novo? Eu dizia: tem. Então eles esperavam o portão abrir sem apitar.”

Num lugar sem energia elétrica e sem lazer, o vai-e-vem das locomotivas acabava sendo o divertimento das famílias, diz Severina. “O trem alegrava, era um barulhinho bom de se ouvir”, comenta. “Agora está tudo diferente, é uma pena eu não ter fotografado nada, teria registrado todas as mudanças”, lamenta.

PASSAGEIROS

Severina e o vizinho Mauro Ramos, segurança aposentado, gostariam de ver nos trilhos transporte público de passageiros. “O VLT passaria aqui e faria a integração com o metrô para Jaboatão. Seria uma maravilha. A gente tem um trilho na porta de casa e não usufrui. Poderia ser construído um muro de proteção isolando a linha”, sugere Mauro.

É a mesma esperança de Joselma Maria de Oliveira e da filha Rafaela Maria de Oliveira dos Santos, moradoras do Caçote, no trecho perto do pontilhão do trem sobre o Rio Tejipió. Aos oito meses de gestação, Rafaela faz a pé o trajeto da linha férrea até o vizinho bairro do Ibura, para realizar exames do pré-natal.

“Seguimos por esse caminho porque encurta a distância, se tivesse um trem de passageiros seria melhor ainda”, afirmam, depois de cruzar o pontilhão de ferro desgastado, conhecido como Ponte Preta, apesar do tom avermelhado. Fica a proposta para a CBTU analisar.

O ramal só serve ao tráfego do Trem do Forró e viagens festivas no Carnaval, além de manutenção de VLT, destacam Hosana Maria e Yohhana Maria Teixeira, moradoras do entorno da via férrea. Elas vivem no trecho da Rua Dona Ana Aurora por onde carro não trafega. São casas de um lado e do outro da via, separadas pela linha do trem.

O Ministério das Cidades informa que apoia financeiramente quatro propostas para uso do VLT como meio de transporte público no Recife, citando a Avenida Norte, Estudos de Viabilidade Técnica e Econômica para o Centro e a Avenida Domingos Ferreira (Boa Viagem) e um empreendimento em fase de contratação, o Sistema Integrado de Transporte.


Jornal do Commercio – Cleide Alves - 04/10/2014

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