terça-feira, 17 de junho de 2014

Legado positivo de uma greve desastrada, por Peter Alouche

Não vou falar das extremas dificuldades que enfrentaram os paulistanos e os pobres turistas da COPA, nestes cinco dias de greve do Metrô, com o fechamento da maioria das estações, provocando o maior congestionamento da história da Cidade deixando-a bloqueada. Não vou citar a impossibilidade de muitos trabalhadores de chegarem a seu trabalho, da velha senhora chegar à sua consulta médica, nem da mãe desesperada levar seu filho ao pronto-socorro. Tudo isso é sabido e infinitamente lamentável. Como são lastimáveis as consequências negativas em termos econômicos para São Paulo e para o País. Também isso é muito sabido. Também não vou entrar no mérito das razões da greve. Isto é um assunto dos metroviários que ainda são funcionários da Empresa e do Sindicato que deve saber o que faz. 

Quero falar de um legado muito positivo que uma greve dessas, por mais desastrada que seja, pode deixar para nosso Metrô... Constatar, uma vez a greve terminada, o sorriso do usuário entrando na estação aberta como se fosse retornar à sua casa, onde por alguns dias ficou impedido de penetrar... Compartilhar da alegria do trabalhador que, mesmo levando uma ou duas horas para chegar a seu trabalho, acha que está sendo premiado por um transporte ideal... Como é bom e reconfortante sentir o amor que tem a população por seu Metrô ! 

Quero falar também de um legado mais político e técnico. Uma greve dessas acaba de vez com discussões de urbanistas, até famosos, que defendiam e ainda defendem a tese absurda de que Metrô é solução de transporte de país rico e que países “em desenvolvimento” teriam que se contentar com o transporte de superfície, porque ônibus seria a solução ideal e suficiente para o transporte de massa de grandes metrópoles como São Paulo e Rio de janeiro. Não esqueço dessa disputa iniciada na década de 80 por Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, que pregaram essas ideias em muitos foros nacionais (inclusive em São Paulo) e internacionais (inclusive UITP) prejudicando muito o financiamento de projetos metroferroviários porque contaminaram inclusive teses de bancos de desenvolvimento como o Banco Mundial. 

Lembro, como se fosse hoje a declaração de Jaime Lerner: “há cidades que ficam esperando pelo metrô, como quem espera Godot. Nos anos 1970 cogitamos construir Metrô, mas os Metrôs são muito caros. A falta de recursos é a mãe da criatividade. Iniciamos a implantação dos corredores de ônibus. O transporte do futuro é de superfície...”. Ou então a afirmação taxativa de Enrique Peñalosa, no Congresso Internacional da UITP em Madrí: “Os ônibus permanecerão os únicos modos possíveis para se prover um transporte público para a maioria da população das cidades de países em desenvolvimento. Os metrôs têm custo muito alto. Nenhum metrô num país em desenvolvimento custou menos que US$ 100 milhões por quilômetro, um investimento duvidoso em cidades onde muitos não têm esgoto, escolas ou acesso a parques”. 

Não resta dúvida que o sistema de ônibus é importante, para não dizer vital, para qualquer cidade, de grande ou médio porte. É o único transporte público que consegue chegar até o mais longínquo canto da cidade, servindo bairros pobres ou ricos, densos ou ermos, um verdadeiro transporte porta a porta. Os corredores de BRT também são muito importantes em grandes avenidas, para fazer fluir o transporte público por ônibus, com rapidez e qualidade. Mas daí a dizer que ônibus substitui metrô, é subestimar a inteligência de qualquer planejador de transporte. Ônibus é alimentador do Metrô. 

A greve do Metrô de São Paulo mostrou definitivamente que o transporte de massa das grandes metrópoles é certamente o Metrô, custe ele o que custar, porque só ele consegue levar numa única faixa, um milhão de usuários por dia. Mas a greve teve outros legados positivos. Começou a reverter, pelo menos temporariamente, a atitude “negativista” que tinha a população em relação à superlotação do metrô e às “falhas operacionais” que tem apresentado nosso sistema, principalmente nas horas de pico. 

Há também um recado particular, muito positivo, endereçado aos funcionários do nosso Metrô, principalmente aos que não viveram, como eu vivi, a implantação das primeiras linhas: A importância gigantesca de seu trabalho e a sua imensa responsabilidade face à população que eles servem. Fico revoltado, às vezes, com alguns metroviários, inclusive ex-colegas meus (Graças a Deus muito poucos), quando às vezes os encontro por acaso e ao chamar-lhes a sua atenção sobre coisas no meu ponto de vista erradas que percebo no sistema, na implantação ou no planejamento das novas linhas. Muitas vezes eles me respondem: “Isto não é problema meu. Não é da minha responsabilidade”. É da sua responsabilidade sim senhor. Ser Metroviário, como eu concebo, não é uma simples profissão. É um sacerdócio, a serviço da população e da Cidade. E quem não assim o vê, deveria ir procurar outro trabalho de menor responsabilidade social. 

Eng. Peter Alouche – Consultor e ex-metroviário 


Abifer – 17/06/2014

18 comentários:

Maristela Bleggi Tomasini disse...

Além de elegante, admirável em sua coerência.

SINFERP disse...

É sim, e corajoso, pois a imensa maioria dos engenheiros que vive as voltas com o tema não se posicionam, exceto para puxar saco de governo, operadoras e empreiteiras, coisa que Peter não faz.

Pregopontocom@tudo disse...

Ahhhhhhhhhh....como é bom ouvir o Prof.falar,dizer a verdade,firme,ser direto,ser objetivo,sem rodeios e meias voltas...nem precisaria ler o texto todo para saber em que alvo ele atirou de maneira direta e certeira,os dois lobistas,um brasileiro e um colombiano.Se tem uma coisa que admiro nele é a sua simplicidade,a objetividade e a sua competência.Pois é quando digo repito exaustivamente nas audiências públicas,debates e fóruns de mobilidade urbana em que participo, que ônibus não é transporte de massa e sim um alimentador,um complementar, importante na sua função,e que na mobilidade urbana existe uma hierarquia a ser respeitada muitos me olham com cara de reprovação,mais vou continuar repetindo....sempre.Pois é meu caro Prof.imagine o Sr.que aqui em Salvador Ba.o "prefeito" da cidade encasquetou e quer construir um "BRT" com 9,5km,19 "estações" para ...pasmem....concorrer com uma linha de Metrô (Lapa/Iguatemi cujo percurso será menor,1/3 com apenas 6 estações e muito mais rápido) a um custo de R$900 mi ou "R$100" mi/km apenas as obras de estruturantes sem o material rodante.Se formos comparar com o VLT metropolitano de Cuiabá com 25 km duas linhas 31 estações e 40 composições a um custo total de R$1.4 bi ou "R$56" mi/km veremos que algo esta errado no reino da "Babilônia".....bem R$900 mi e ainda não saiu do papel e até lá sabe Deus em quanto vai ficar...Alem do alto custo financeiro existe também um alto custo ecológico e ambiental,com a destruição de 545 árvores,e de todo um canteiro central arborizado e verde ao longo de toda Av.Juraci Magalhães Jr,com o córrego existente no canteiro central que sera tubulado juntamente com impermeabilização do solo no local.A insensibilidade dessa gente,a falta de responsabilidade social e politica para com a cidade e sua população não tem limites, e isso significa,mais trabalho pra gente,mais participação,mais cobranças,mais discussões,e mais lutas,por isso não podemos parar.Mais a 1ª batalha já foi vencida e o nosso Metrô já está rodando,após 15 anos, e que venham outras........
PS.Nossa definição sobre o BRT = apenas um sistema de ônibus mais organizado,só isso.

SINFERP disse...

Olá, Pregopontocom. Peter continua afiado e certeiro. rsrsrs Gratos pelas notícias e comentários do que anda "rolando" por Salvador. Parabéns pela vitória, ainda que tardia. rsrsrs

Pregopontocom@tudo disse...

Pois é.... eu fica aqui pensando o que os "anfitriões do BRT" Peñalosa & Lerner,diriam sobre o modesto custo,a baba que vai se gastar para construir um BRT que tem tudo para se transformar em um grande elefante branco e destruir uma parte da nossa cidade.R$100 mi por/Km apenas as obras estruturantes que serão contempladas com estações elevadas...isso mesmo estações elevadas....e anunciam como se fosse a obra do século.Mais talvez seja mais uma obra para daqui a um século......

SINFERP disse...

A lógica dessa gente é que, com os tais corredores, o dinheiro público é investido (gasto?) na infraestrutura, mas que as despesas com veículos, manutenção, etc. correm por conta dos concessionários privados. Ora, a manutenção dos corredores, bem como de toda a demais infraestrutura de trânsito é bancada com dinheiro público. Balela, portanto. Escolha para favorecer a indústria automotiva, de autopeças, de combustível e as próprias concessionárias privadas.

Anônimo disse...

o senhor peter alouche esqueceu de um "simples" detalhe: o governo do estado de SP.

o governo que pouco fez pela ampliaçao do sistema metroferroviario em 20 anos. o governo que deixou a greve ocorrer porque simplesmente quis fazer uma queda de braço com o sindicato.

e qual o problema com a atitude negativista da populaçao em relaçao ao superlotaçao do metrô? é a politica do "melhor isso do que nada"? é assim que este senhor faz usas consultorias?

e vale lembrar que ele em muitas outras reportagens já defendeu as PPPs e terceirizaçoes. nao se enganem!

Paulo Lima disse...


Uma coisa que me não me pegou bem(talvez eu que não entendi direito), que ele defendeu os BRTs e nem citou nada de VLT. Realmente o BRT é mais barato que o Metrô e Monotrilho. Mais o VLT também é barato se comparar o Metrô. E realmente o Metrô é muito mais caro mesmo e as vezes não compensa para uma Cidade de Médio Porte, como Campinas, Jundiaí, Ribeirão Preto e Santos. O ideal para essas Cidades, é o VLT mesmo!!! E algumas linhas de BRT para alimentar o VLT. É essa tese que defendo.
O erro politico que vejo, e que muitos só pensam no BRT, e tratam o VLT como "muito caro para implantar" e a imagem todos tem é que "O VLT de Campinas nao deu certo" e as "obras do VLT de Cuiabá estão atrasadas". Tem que tirar essa imagem dos Politicos Brasileiros em negativismo do VLT.
Foi por isso que também, o VLT de São josé dos Campos(SP), não foi a frente. Porque um Bloguero e Colunista de um Jornal local um Filha da p......, só ficava falando que o VLT é um horror, e que o BRT é muito mais bonito para Cidade. RIDICULO!!! A ignorancia e falta de conhecimento.
Por isso que muta gente, insiste que as Soluções para Cidades é ônibus e BRT, e o VLT como muito caro para Implantar.
Por isso que não vejo a hora dos VLTs de Cuiabá(MT), Santos(SP) e Rio de Janeiro ficaram prontos logo!! Para dar exemplo nacional em Mobilidade Urbana, e mudar a mentalidades desses Prefeitos em todo País.

Paulo Lima disse...

Olhe essa Reportagem, interessante.
Sobre o VLT. Achei interessante.

https://www.youtube.com/watch?v=nDdJtW2-j2c

Apesar que Cuiabá e Santos já estão implantando. O Brasil inda está longe em ser destaque em Mobilidade Urbana.

SINFERP disse...

Ele nada tem contra as PPPs, Anônimo. rsrsrs

SINFERP disse...

Não, Paulo, neste artigo ele não defendeu o VLT, mas fez uma boa crítica aos BRTs. Não podemos esquecer que ele conhece essa coisa toda ao vivo e em cores.

Anônimo disse...

Paulo Lima, o peter é consultor tecnico de projetos de VLT, voce acha ele faria discurso contrario ao VLT? acho q vc interpretou errado o texto.

SINFERP disse...

Acreditamos, Anônimo, que o Paulo não viu atendida a expectativa de o Peter defender VLTs, e apenas isso. Aliás, de modo bem acentuado, quase todo mundo aqui defende VLT em detrimento dos buzões simpaticamente denominados BRTs. Peter é uma referência quando se fala em VLTs neste país.

SINFERP disse...

Valeu o Link, Paulo. Gratos. Está no ar.

Maristela Bleggi Tomasini disse...

Pelo volume de comentários, assim como pela pertinência destes, São Paulo Trem Jeito bem que poderia publicar ou republicar outros artigos assinados pelo Dr. Peter Alouche.

SINFERP disse...

Olá, Maristela. Gratos pela sugestão. Uma opção, entretanto, aos mais interessados, é buscar por mais artigos de Peter, digitalizando o nome dele em "pesquisar neste blog", a direita da página. Neste artigo, e no dizer dos mais jovens, ele "causou". rsrsrs

Peter Alouche disse...

Gostaria de agradecer a todos os que gentilmente comentaram meu artigo (ponto de vista) sobre a greve do Metrô. Fiquei muito feliz e honrado. Penso que a maioria entendeu a mensagem, em particular a cobrança que faço aos meus ex-companheiros do Metrô, que não cuidam, no meu entender, como deveriam do nosso tão querido metrô. Os que me conhecem sabem o quanto sou um apaixonado pelo sistema ao qual dediquei 40 anos de minha vida profissional, com dedicação e honestidade. Só teve um comentário de um "anônimo", que me acusou de " vale lembrar que ele em muitas outras reportagens já defendeu as PPPs e terceirizaçoes. nao se enganem!". Não me lembro ter publicado reportagens neste sentido. Gostaria de conhecer este "anômimo" para lhe contar das minhas lutas sindicais das quais participei, quando metroviário. Fique sabendo meu amigo "anônimo" que a esta altura da minha vida profissional, tenho me permitido dizer publicamente o que penso em termos técnicos. Sem medo de me expor, sem medo de errar, sem medo de aprender com comentários e argumentos consistentes. Gostaria muito de aprender contigo. Mas por favor, não me acuse de idéias que não são minhas. André Malraux, no seu livro "Les voix du silence", dizia que o que um homem deixa na vida, é o que ele tivesse gravado na pedra. ... Não me lembro ter gravado as afirmações a que o amigo "anônimo" se refere.... Rogerio muito obrigado por ter divulgado este meu artigo e causado tanta discussão e apoio.

SINFERP disse...

Gratos pela visita e pela postagem do comentário, Peter. Seu artigo "causou" pelo que tem de polêmico, e isso é ótimo. Por uma dose de sorte, mas na maior parte das vezes pela temática mesma, nossos comentaristas, de diversos graus de interesse, e mesmo de formação no assunto dos trilhos, são muito gentis. O grande de número de "anônimos" deve-se ao fato, apenas, de não registrarem seus comentários a partir de contas "gmail". A restrição do provedor, e não deles, é que impõe que ingressem como "anônimos". Em alguns posts, até mesmo nós temos dificuldades de identificar os "anônimos", pois não sabemos para qual deles responder. rsrsrs Forte Abraço.