terça-feira, 11 de março de 2014

Quando o Rio de Janeiro terá trens decentes?

O 3º acidente em menos de três meses é uma prova de que o sistema ferroviário carioca não acompanhou as transformações da cidade. É preciso por tudo de volta nos trilhos
São Paulo - Pela terceira vez em 2014, um trem da SuperVia, concessionária dos trens metropolitanos do Rio de Janeiro, se envolveu em um acidente. Na manhã desta segunda-feira, um trem que seguia para a Central do Brasil descarrilou próximo à estação Deodoro, na zona oeste da cidade. 
As causas do incidente, que deixou 7 feridos e obrigou centenas a andarem nos trilhos para chegar à estação mais próxima, ainda não foram divulgadas, mas ocorrências do tipo já são velhas conhecidas de quem precisa viajar em trens velhos, linhas mal sinalizadas e estações precárias. 
A resolução para estes problemas está nas mãos do governo do estado e da Odebrecht Transport, que assumiu a operação da SuperVia em 2010 (e comandará o sistema até 2048)
Desde a assinatura do contrato, fala-se em investimentos vultosos: ao governo, caberia investir R$ 1,2 bilhão para renovar a frota de trens. A SuperVia, por sua vez, ampliou sua parte no aporte acordado contratualmente com o Governo do Estado, passando de R$ 1,2 bilhão para R$ 2,1 bilhões.
Segundo a empresa, o investimentos, somados aos governamentais, permitiram a compra de 120 novos carros refrigerados que já estão em circulação, e de outros 360 que começam a circular neste ano, a troca de mais de 100 quilômetros de trilhos, instalação de 70 mil dormentes, substituição de 80 mil metros de cabos de rede aérea e reformas de estações.
Nada que tenha conseguido, até agora, trazer sossego à quem usa o sistema. A esperança é que a necessidade de tornar o negócio rentável para o lado da Odebrecht, o que irá exigir que se atraia mais passageiros para os trens, acarrete na melhoria dos serviços no futuro. 
O horizonte para que as evoluções comecem a ser sentidas é curto. Com a Copa se aproximando, governo e empresa têm a missão de modernizar os trens para por tudo de voltar nos trilhos. 
Segundo a SuperVia, o número de falhas foi reduzido de 1.611 (2011) para 600 por ano (em 2013). No entanto, a quantidade de incidentes ainda incomoda a empresa, governo e, principalmente, os usuários
"Trens novos (com ar condicionado!) já estão vindo para o Brasil e devem melhorar a situação em partes. O problema é que eles não conseguem trafegar em uma velocidade mais alta por conta dos trilhos e sinalizações ultrapassados", explica o professor da UERJ, Alexandre Rojas.
Os trens da SuperVia circulam hoje a uma velocidade média de 38km/h, pouco mais que os ônibus que enfrentam o trânsito caótico da capital fluminense.
Trilho e sinalização novos poderiam dobrar a velocidade e a quantidade de passageiros transportados. "Funcionando bem, a SuperVia tem o potencial de melhorar, inclusive, o trânsito nas ruas da cidade", conclui Rojas.
À EXAME.com, a empresa disse que as melhorias podem demorar ainda mais um pouco para serem percebidas. "O processo de mudança do trem do Rio é irreversível e seguimos firmes na decisão de contribuir com essa transformação. Entretanto, os investimentos na modernização de qualquer sistema ferroviário do mundo demoram de 4 a 5 anos para serem concluídos", diz em nota.
Um milhão
Em janeiro deste ano, outro descarrilamento levou o caos ao Rio de Janeiro. De acordo com a SuperVia, um trem que ia da Central do Brasil para Duque de Caxias saiu dos trilhos por volta das 5h. Os vagões atingiram a rede elétrica, que foi derrubada sobre a linha, afetando todo o transporte ferroviário na região metropolitana da cidade.
A meta da Odebrecht é trazer de volta para os trens os 1 millhão de passageiros que utilizavam o sistema ferroviário até o final dos anos 1980 -hoje, esse número está em cerca de 600 mil passageiros por dia. Para isso, no entanto, serão necessárias melhorias em infraestrutura.
Para Alexandre Rojas, da UERJ, os trens são vítimas de 50 anos de degradação. A relação hoje entre empresas e usuários não é boa.  
"A SuperVia tem uma malha semelhante à da CPTM, em São Paulo, só que o projeto da rede de trens carioca data de meados do inicio do século XX", explica o professor.
Sua concepção, que data quase 100 anos de idade, não atende mais às necessidades da segunda maior metrópole do Brasil. 
Segundo Rojas, a maior parte dos problemas está ligada a essa estrutura ultrapassada. "Não adianta fazer reparo, tem que ser tudo reprojetado", afirma. 
Em 1998, quando houve a privatização da SuperVia, a circulação de passageiros já havia despencado para 300 mil por dia.

Exame – Beatriz Souza – 10/03/2014

Comentários do SINFERP


Apesar de estar em melhor situação, a CPTM também gosta de falar em herança de obsolescência. Interessante, no caso da CPTM, é esquecer que essa herança tem 20 anos, e sob a batuta de um mesmo governo, no qual revezam sempre os mesmos.  Também em São Paulo vigorou a escolha de investimento em trens novos (com o apelo do ar condicionado), para depois se preocupar em dar conta da obsolescência da via, da rede aérea, etc. Em São Paulo ocorreu algo igualmente revelador: com a propaganda sobre os trens novos, aumentou consideravelmente o número de usuários, e  CPTM simplesmente não tinha condições de atender a demanda, embora, por décadas, sustentada pela lógica da relação investimento versos demanda.  São mesmo décadas de abandono e degradação, em boa medida propositais para fomentar o transporte rodoviário. Temos governadores, mas faz tempo que não temos estadistas. 

5 comentários:

Anônimo disse...

Privatização dá nisto .......... e este negócio de PPP é duvidoso.

SINFERP disse...

Já viu "privatização" e parceria com o setor "privado", onde quem banca tudo é o dinheiro público? Financiamento público, prejuízo público, e faturamento privado.

Anônimo disse...

e a coisa só nao está pior no RJ porque o governo estadual investiu em alguma coisa. se o governo fizer uma privatização de verdade, nenhuma empresa aparece, pois ninguem quer assumir a responsabilidade real. só quer lucrar sem investir.

Anônimo disse...

Olha a CPTM de novo : http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2014-03-12/plataformas-da-linha-9-da-cptm-ficam-lotadas-apos-queda-de-energia.html

SINFERP disse...

Gratos, Anônimo. No ar. Puxa, pensávamos que essas coisas só acontecessem no Rio de Janeiro. rsrsrs