quarta-feira, 5 de março de 2014

Por que percorrer a ferrovia transiberiana é uma das grandes experiências para um viajante

foto Thiago Copetti
Leitora explica a atração da ferrovia, que atravessa sete fusos horários, três países (Rússia, Mongólia e China) e dois continentes (Europa e Ásia). 
ferrovia transiberiana — joia mais cara da coroa dos czares russos, ainda é uma das grandes experiências da vida em matéria de viagens. Ela atravessa 7 fusos horários, 3 países (Rússia, Mongólia e China) e 2 continentes (Europa e Ásia). A ferrovia cruza algumas das áreas mais desafiadoras geograficamente da Rússia, e representa um triunfo do homem sobre a natureza, e realizar essa viagem é possível para qualquer pessoa com algum tempo, um pouco de dinheiro e um senso de aventura. Na mochila, muito bom humor e remédios variados para ressaca (não há transiberiana sem vodka). 
A nossa opção foi pela rota transmongoliana, começando em São Petersburgo, na Rússia, e passando por Moscou, a impressionante capital da Praça Vermelha e do Kremlin, dos arranha-céus Stalinistas e bilionários do petróleo, parando em Suzdal para provar a medovukha, em Nizhny Novgorod, às margens do Rio Volga. Também por Kazan, a multicultural capital do Tatarstão, Yekaterinburg, Novosibirsk e Krasnoyarsk. 

Fizemos uma pausa imprescindível para comemorar o aniversário de 2 aninhos do pequeno viajante Felipe em Irkutsk — Listvyanka, na beira do Lago Baikal, a safira da Rússia, lago mais profundo e mais antigo do mundo, que contém quase 1/5 do total de água fresca do globo terrestre, declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, e enfim Ulan-Ude, antes de cruzar a pulsante capital da Mongólia, Ulaanbaatar, Datong, já em território chinês, terminando na Beijing pós-Olímpica em que se transformou a antiga capital imperial da China. 

Nós não vamos enganar ninguém dizendo que viajar por aqui é navegar em águas calmas. Não é. A língua dificulta muito a comunicação, e a cara inicial dos russos é gélida. Como disse meu amigo George "I just wish they didn't look so SAD"! É comum interpelar as pessoas na rua para solicitar alguma informação e os russos nem "ó" para nós, fingem até que não nos viram (será medo???)... 

A acessibilidade para andar com um carrinho de bebê também não é das melhores — quase todas as escadarias de saídas de metrô ou de estações de trens têm rampas, mas elas não são padronizadas e não se adaptam à largura do nosso carrinho (acho que servem para bicicletas apenas). 

Comprar as passagens de trem podia ser uma tortura ou a glória do nosso dia: por vezes saía do guichê bufando de raiva e gritando para a atendente que ela era uma vaca mal-amada (em português, óbvio, para não correr o risco...), mas, em outras vezes, saía com vontade de beijar a funcionária, tamanha a alegria de ver o esforço da mulher para nos ajudar. 

Tolerar a burocracia, a corrupção e alguns desconfortos é parte integral da viagem — mas um pequeno grau de perseverança é totalmente recompensado — a Rússia permanece sendo um país único, que todos deveriam ver por si mesmos!!! O país que criou Pyotr Tchaikovsky (O Lago dos Cisnes e O Quebra-nozes), Fyodor Dostoevsky (Crime e Castigo, O Idiota, Os Irmãos Karamazov, A Casa dos Mortos), Leo Tolstoy (Guerra e Paz, Anna Karenina), Boris Pasternak (Doutor Zhivago) e Vasily Kandinsky não decepciona. 

Até parte do caminho, optamos pela classe platskartny, que é a terceira classe (existem outras piores, hehehehe), com caminhas duras em cabines abertas para 6 pessoas que, no fim dos trechos, mais se parecem com alojamentos em campos de concentração. Os trechos eram mais curtos. Mais adiante, só kupeyny(segunda classe), que são cabines fechadas para 4 pessoas, onde a gente tem mais privacidade. A diferença de preços é algo impressionante, da terceira para a segunda classe o preço é o triplo, mais ou menos! 

Em Yekaterinburg o horário é 2 horas à frente de Moscou, e já estávamos na Ásia. O obelisco que marca a divisão entre os 2 continentes fica no Km 1777 da ferrovia. É muito estranho isso do fuso horário, porque todas as passagens são compradas pelo horário de Moscou, mas em Krasnoyarsk já estávamos 4hs à frente de Moscou, e em Irkutsk 5h à frente! 

Ou seja, na passagem que compramos de Krasnoyarsk para Irkutsk dizia que o horário de partida era às 13h48min e o horário de chegada às 7h39min (do dia seguinte), enquanto que, na verdade, tivemos que estar na estação de trens para partir às 17h48min, e só chegamos às 12h39min. Não é de enlouquecer??? Nas estações de trem os relógios também marcam a hora de Moscou, e no trem as refeições seguem o horário de Moscou no vagão-restaurante, o que significa que eles podem vir a servir o almoço às 6 da tarde!!! Que confusão... 

Um dado interessante sobre a Rússia é que ela, sozinha, ocupa mais de 1/6 da face da Terra! Os 3 países interligados pelas rotas transiberianas cobrem mais de 1/4 do globo terrestre, sendo a Rússia o maior país do mundo, com a China em quarto lugar e a Mongólia em oitavo. Atravessamos regiões de tundra, taiga, estepe e deserto; cruzamos o Rio Volga, o mais comprido da Europa, com 3690Km. Para quem faz a viagem direto, sem parar em nenhuma cidade no caminho (coisa mais sem graça!), o trecho Moscou — Beijing leva quase 7 dias (6 dias e algumas horas) para se percorrer, numa jornada de 7865Km. Como nós fizemos vários desvios no caminho, nosso percurso deu bem mais de 8000Km, e levamos uns 35 dias no total!  

Com certeza não é uma jornada para quem tem pressa (a velocidade média dos trens não ultrapassa os 70Km/hora), nem são os trens particularmente glamorosos, mas uma viagem transiberiana é, certamente, uma jornada para se lembrar para sempre. 

Zero Hora – Claudia Rodrigues Pegoraro – 04/03/2014

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