segunda-feira, 3 de março de 2014

Em busca dos músicos que farão a trilha do metrô de Paris

foto Davide Monteleone
O metrô da capital francesa tem um diretor artístico, que escolhe quem tocará nos corredores do subterrâneo
Em uma tarde chuvosa no décimo-primeiro arrondissement de Paris, Antoine Naso se espremeu para descer a escada de caracol de seu pequeno escritório e caminhou em direção a uma roda de jovens que aguardavam por uma oportunidade de fazer um teste em um claustrofóbico porão. 
Naso tem um trabalho um tanto incomum: ele é diretor artístico do Metrô de Paris. Porém, leva seu trabalho tão a sério quanto seus colegas que atuam em óperas.
— Por que vocês estão aqui? — perguntou enquanto os jovens esperavam, atentos, sob o brilho dos holofotes.
O poeta e músico Thibault Couillard piscou com ansiedade e pigarreou, limpando a garganta.
— Nós gostaríamos de fazer esse show — respondeu, pegando o microfone enquanto seus colegas abriam o zíper de bolsas úmidas e tiravam dois violões, uma bateria de pedal e uma escaleta.
— Seria mágico se pudéssemos tocar para grandes multidões.
Naso já tinha ouvido quase duzentas apresentações em dez dias. Quando a banda de Couillard, o Danny Brixton Trio, terminou uma série de números ao estilo de Serge Gainsbourg, no entanto, o diretor já estava convencido. O grupo receberia uma das 300 cobiçadas licenças que permitem aos artistas se apresentarem praticamente onde quiserem, na hora que quiserem, no gigante teatro subterrâneo que é o metrô de Paris.
Com cinco milhões de passageiros por dia, 303 estações e quilômetros e quilômetros de linhas, o metrô "se tornou a mais importante cenário musical de Paris", disse Naso, um homem ativo vestido com calça jeans preta e botas de couro, que montou um programa para garantir música ao vivo e de qualidade no metrô da cidade há 16 anos.
Os parisienses sentem certa nostalgia ao ouvir os artistas de rua, que tocam acordeões, trompetes, xilofones ou apenas cantam a plenos pulmões no vasto labirinto acústico do metrô, desde sua criação em 1900.
Cerca de duas mil pessoas se inscrevem anualmente para os testes realizados na primavera e no outono, avaliados por Naso, dois funcionários do metrô e dois cidadãos de Paris. Das 300 licenças concedidas, cerca de metade é destinada a músicos veteranos, e o restante vai para recém-chegados.
— Nós temos artistas de alto nível — disse Naso, que estima ter avaliado cerca de 20 mil testes desde 1997, quando o programa de licenças começou.
— Produtores e gravadoras estão contratando cada vez mais artistas que encontram no metrô — diz ele. — Às vezes, nasce uma estrela.
Ele apontou para fotos de artistas que conquistaram a fama transformando o metrô em sua própria casa de shows, entre eles o músico de funk Keith Jones; Lâm., um artista franco-tunisiano de hip-hop, e o músico de rock e soul Ben Harper, da Califórnia.
Há duas classes de artistas rondando pelo metrô: os legalizados, com permissões concedidas por Naso, e os artistas de rua sem licença, que costumam pedir a força a atenção do público em trens com seus acordeões desafinados — ou alguma apresentação menos convencional.
Recentemente, na hora do rush, um homem que se intitulava o Michael Jackson romeno começou a fazer uma dança robótica, com um casaco vermelho cheio de lantejoulas cintilantes e mechas de cabelo que saltavam de uma peruca afro. Enquanto os passageiros recuavam, ele aumentava o som de seu aparelho portátil, soltando gritos ao som de "Billie Jean".
— Eu faço isso por dinheiro — disse o homem, que se identificou como Florian Jackson, acrescentando que ganha cerca de 1.500 euros por mês (aproximadamente R$ 4.630). Para ele, o trabalho é bastante estressante.
— É difícil dançar como o Michael em um trem em movimento; minhas costas doem! — contou. — Aí os policiais vêm e me mandam ir embora. Todavia, eu sempre volto.
Naso diz que as autoridades tentam impedir que as regras sejam burladas, mas às vezes não há funcionários em número suficiente para a fiscalização. — Nem todo mundo deveria tocar — disse ele. — É preciso ter talento.
Não muito tempo atrás, em um cruzamento movimentado na estação de Châtelet, o experiente texano Don Troop tocava sua guitarra, enchendo três corredores imensos com rock. Uma multidão se juntou, enquanto seus dedos calejados, adornados com um anel de caveira de ébano, voavam sobre as cordas.
— Eu toco para o povo, cara — disse ele.

Zero Hora – 02/03/2014

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