quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A segregação dos trens na área metropolitana de São Paulo

Paulo Roberto Filomeno

Talvez poucos saibam, mas existe na Internet um site chamado Geoportal, o qual mostra imagens aéreas de São Paulo (e várias cidades vizinhas) do ano de 1958! Um verdadeiro “Google Maps” em preto e branco, que nos dá ideia real do crescimento que a região metropolitana de São Paulo experimentou em 55 anos.

Muita coisa cresceu e foi construída na cidade durante esse período, mas uma coisa literalmente “sumiu do mapa” desde essa época. Foram os pátios ferroviários que atendiam a cidade, nos quais eram realizadas carga e descarga de mercadorias transportadas por via ferroviária. Presidente Altino, Lapa, Barra Funda, Pari, Brás, Moóca, entre outros. Uns viraram espaço para oficinas dos trens metropolitanos, outros Memoriais, alguns Feirinhas da Madrugada e outros estacionamento de sucatas ferroviárias.

Ou seja, não se transporta mais nada por ferrovia dentro da área metropolitana de São Paulo, com algumas exceções, como areia, ainda descarregadas na Água Branca e Moóca, bobinas de aço, também na Moóca e alguma coisa em moinhos em São Caetano e Santo André. E o governador já declarou que não quer mais trens de carga circulando na área da CPTM.

Isso se deveu por dois fatos: O primeiro pelo gradual e progressivo abandono das ferrovias para o transporte de carga geral, já que em nosso país priorizou-se este modal para o transporte de gêneros unitários de grande volume e baixo valor agregado. O segundo, mais recente, foi a decisão do Governo do Estado, após a criação da CPTM, em melhorar a qualidade das linhas metropolitanas, com mais trens e menor “headway” (intervalo entre trens). Iniciativa louvável, sem dúvida, mas da forma que vem sendo executada, com efeitos que afetaram e ainda afetarão a vida das cidades por onde passam as ferrovias, sem contar o que implica tal fato no acesso ao Porto de Santos.

Os que ainda se lembram das ferrovias até meados dos anos 80, quando ainda existiam alguns desses pátios, certamente recordam que os trens metropolitanos de então conviviam com os cargueiros (e também trens de passageiros que ainda eram frequentes) e no caso das linhas da Santos-Jundiaí, os “trens de subúrbio” (assim chamados) circulavam diretamente de Francisco Morato a Paranapiacaba.

Ainda existiam diversos armazéns à beira da linha, bem como desvios ferroviários atendendo indústrias e terminais diversos. Locomotivas manobreiras eram comumente vistas andando para lá e para cá nas vias laterais.

Como exemplo, ao longo da Avenida Presidente Wilson, a qual corre paralela à ferrovia, da divisa de São Caetano à Moóca, existem vários armazéns, os quais tem acesso tanto para a avenida como para a ferrovia. Do lado da ferrovia não há sequer um trilho para acesso aos armazéns (e onde existem trilhos, existem vagões apodrecendo em cima). Do lado da avenida, frequentemente carretas enormes interrompem o tráfego para poderem entrar nos armazéns para carga e descarga.

Atualmente, além de cada vez menos circularem trens de carga, as linhas de passageiros foram seccionadas, mesmo se investindo pesadamente em novos sistemas de sinalização. É muito mais difícil hoje ir do ABC à Lapa por trem do que há 20 anos. 2 baldeações são necessárias, antigamente os trens eram diretos.

Em outros artigos já fiz críticas à nossa perda da cultura ferroviária, o que implica na falta de conhecimento da operação ferroviária. Como podíamos fazer conviver trens cargueiros e trens de passageiros enquanto hoje, com tecnologias de controle e de sinalização muito superiores, não conseguimos mais fazê-los conviver?

Não seria possível a construção de trechos paralelos às linhas metropolitanas para que trens cargueiros voltassem a circular em condições razoáveis de operação, para atender potenciais clientes que ainda teriam interesse no transporte ferroviário, ao invés de simplesmente jogá-los ao modal rodoviário, com o consequente aumento do tráfego nas já congestionadas ruas e avenidas da cidade? Isso sem falar no aumento do tráfego do Sistema Anchieta-Imigrantes e as implicações que o Portogente reporta quase que diariamente.

Infelizmente neste caso, vestiu-se um santo e desvestiu-se outro. O investimento no transporte metropolitano de passageiros por ferrovia é realmente necessário para São Paulo e suas cidades vizinhas, mas infelizmente se esqueceram de que as ferrovias também transportam cargas com mais vantagem que qualquer outro meio de transporte terrestre. O certo era investir de forma que a ferrovia continuasse atendendo, dentro da região metropolitana, tanto cargas quanto passageiros.

Paulo Roberto Filomeno


Portogente – 01/10/2013

7 comentários:

Anônimo disse...

Infelizmente não estamos na Europa onde a operação de cargas e passageiros é compartilhada. O articulista vive em outro País, ou está na década de 80. Comparar o passado quando existia a metade da população na grande SP, os trens eram de meia em meia hora nos dias úteis é inconcebível. Provavelmente o mesmo não utiliza trem metropolitano diariamente e parou no tempo. As ferrovias já perderam a guerra das cargas de valor agregado há muito tempo, e é algo que vai permanecer por muito e muito tempo. Prejudicar a população da região metropolitana por causa de minérios, areia e outros siderúrgicos "porque na década de 70" conviviam normalmente beira o insano. A solução é lutar por batalhas que possam ser vencidas, como a construção do ferroanel.

Paulo R. Filomeno disse...

Prezado anônimo;
Não vivo na Europa (infelizmente) e vivo no presente, até trabalhando na área. Talvez até lhe conheça, uma vez que você também parece militar no meio ferroviário. Estou sempre "no trecho", como se diz no jargão. Portanto, suas assertivas são infundadas.
Mas o ponto que procuro reforçar no artigo é que não foi elaborado um planejamento adequado para essa convivência e também não se investiu nisso por muito tempo, razão pela qual não temos operação compartilhada de cargas e passageiros. Não disse nesse artigo que a população deva ser prejudicada com o transporte de cargas. Disse apenas que eles poderiam conviver se um planejamento para tal fosse feito adequadamente. E eu sou totalmente contrário a atrapalhar o tráfego metropolitano com transporte de siderúrgicos, areia, essas coisas, da forma que hoje acontece. O que eu sinceramente gostaria é que houvesse espaço para o transporte de cargas diversas para a região metropolitana. Espero que concorde comigo que o trânsito na região metropolitana de SP é extremamente prejudicado por causa dos caminhões que chegam e saem da cidade transportando produtos que poderiam chegar por via ferroviária em terminais mais ou menos centrais. Se na Europa é assim, por que razão não poderia ser assim também aqui?
Quanto ao Ferroanel, espero que ele saia, mas sinceramente, eu acho dele o seguinte: Serão mais duas paralelas de aço que farão a mesma coisa que as ferrovias que sobraram no restante do Estado. Ou seja, nenhum benefício no transporte ferroviário para a população. Só para as concessionárias. Talvez desafogue a CPTM, mas irá mesmo implicar numa melhoria substancial dos serviços desta? Tenho minhas dúvidas. Mas peço que você fique de olho no próximo artigo (esperando que o SPTJ o publique também), o qual abrangerá o mesmo tema.

SINFERP disse...

Reforçando seus argumentos, Paulo, nos parece importante salientar que, no que diz respeito ao transporte de cargas por ferrovias, São Paulo tornou-se mero corredor de passagem para elas. Sem dúvida publicaremos seu próximo artigo.

Anônimo disse...

o problema do Brasil é que tudo que se faz aqui é através de lobby e alguem levando vantagem. poucos sao os que exercem cargos publicos que realmente pensam no bem estar publico. se fosse vantajoso para a MRS ou a ALL fazer transporte de cargas dentro da RMSP, pode ter certeza que os governos municipal, estadual e federal fariam uma ferrovia até em cima da outra. os investimentos bilionarios na CPTM foram feitos para desviar dinheiro e encher o bolso de muita gente, principalmente gente da espanha, que vive numa pindaíba e estao sugando o dinheiro brasileiro, principalmente dinheiro oriundo do estado de SP. o Brasil nao é um país sério.

SINFERP disse...

Caro Anônimo. O interesse de lobby é lucro, e se possível fácil. Uma das críticas às operadoras privadas é justamente a de não colocar seus trens a serviço da economia paulista. O que você chama de luta em defesa de batalha que pode ser vencida - o ferroanel - é luta de interesse das operadoras, mas não necessariamente dos paulistas. Essa bandeira, portanto, age em defesa maior do Lobby, com o seguinte recado: "facilitem a vida de nossos negócios, e deixaremos de atrapalhar o tráfego de trens de passageiros". O lobby tem conseguido isso com dinheiro público, e com sucesso, em várias cidades do Estado de São Paulo. Ficamos, portanto, com Paulo Roberto, e pelos seguintes motivos básicos: 1) é identificado e não anônimo; 2) publica um texto alicerçado sobre argumentos.

Anônimo disse...

SINFERP, eu nao sou o mesmo anonimo que escreveu no 1º post. acredito que houve confusao e interpretaçao erronea do comentario que fiz, que em nada defende o lobby ou batalha por ferroanel.

SINFERP disse...

Desculpe-nos, Anônimo (2), desculpe-nos. Não tínhamos como saber, não é? Abraço.