sábado, 28 de setembro de 2013

Não é só a mobilidade: que faremos com a poluição?

Enquanto isso...
Nas recentes discussões sobre "mobilidade urbana", custo dos congestionamentos para o usuário em tempo e horas de trabalho, baixo investimento em transporte de massa - todas exacerbadas pela onda de protestos nas ruas -, tem merecido pouca atenção o tema do impacto da poluição do ar (agravado por todas essas causas) na saúde da população e no número de mortes, principalmente nas metrópoles. E foi essa exatamente a discussão sobre a "Avaliação do impacto da poluição atmosférica sob a visão da saúde no Estado de São Paulo", promovida no início da semana na Câmara Municipal de São Paulo, com base em pesquisa desenvolvida pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade, coordenada pelos professores Paulo Saldiva e Evangelina A. Vormittag, ambos doutores em Patologia, com a participação de mais cinco pesquisadores.
É um trabalho sobre o qual deveriam debruçar-se os administradores públicos da cidade de São Paulo, de sua região metropolitana e de cada uma das cidades paulistas, tantas são as informações que podem orientar seu trabalho. A começar pela conclusão de que, se houvesse uma redução de 10% nos poluentes na capital entre 2000 e 2020, poderiam ser evitados nada menos que 114 mil mortes, 118 mil visitas de crianças e jovens a consultórios, 103 mil a prontos-socorros (por causa de doenças respiratórias), 817 mil ataques de asma, 50 mil de bronquite aguda e crônica, além da perda de atividades em 7 milhões de dias e 2,5 milhões de ausências ao trabalho. Em apenas um ano (2011) a poluição da atmosfera contribuiu para 17,4 mil mortes no Estado.
Ainda é tempo de refletir e mudar, pois, diz a pesquisa, o tráfego e a poluição explicam 15% dos casos de enfarte na cidade de São Paulo. Quem acha que o adensamento habitacional em certas áreas pode aumentar a mobilidade deve prestar atenção a esse mesmo estudo: "O aumento do tráfego em 4 mil veículos/dia numa via até a 100 metros da residência mostrou ser um fator de risco para o desenvolvimento de câncer de pulmão". E tudo isso embora os programas de controle da poluição do ar por automóveis, implantados a partir da década de 1990, tenham levado a uma redução de 95%, assim como a 85% na de caminhões. Até os cinco primeiros anos desta década, a diminuição de 40% na concentração de poluentes evitou 50 mil mortes e gastos de R$ 4,5 bilhões com saúde - além da redução no consumo de combustíveis e na emissão de poluentes.
Mas, apesar das evidências, ainda prevalece, aqui e no mundo, uma situação dramática. A cada ano, em uma década, 2 milhões de pessoas morreram vitimadas pela poluição do ar em todos os continentes - uma década antes foram 800 mil. E, segundo os pesquisadores, a poluição do ar "deve se tornar a principal causa ambiental de mortalidade prematura". Com a preocupação adicional, para nós, de que as médias anuais de poluição em todas as estações paulistas onde se coletam dados estiveram, em todos os anos, em 20 a 25 microgramas por metro cúbico de ar, acima do padrão de 10 microgramas por metro cúbico de ar, que é o da Organização Mundial da Saúde. Em São Paulo, o índice é de 22,17 microgramas. E a poluição não é só de material particulado, mas também de ozônio.
Com frequência o noticiário informa que na Região Metropolitana de São Paulo um terço dos veículos não passa por inspeção - e são exatamente os mais antigos, mais poluidores. Mesmo assim, a implantação do controle na capital reduziu em 28% as emissões de material particulado. Se fosse estendida a toda a área metropolitana, poderia evitar 1.560 mortes e 4 mil internações, além de levar a uma redução de R$ 212 milhões nos gastos públicos. Outro dado impressionante da pesquisa: se todos os ônibus a diesel usassem etanol, seria possível reduzir em 4.588 o número de internações e em 745 o número anual de mortes por doenças geradas/agravadas pela poluição. E o sistema de metrô reduz em R$ 10,75 bilhões anuais os gastos com a poluição.
Já passou da hora de implantarmos sistema semelhante ao da Suécia, onde é limitado o número de anos (20) em que um veículo pode ser usado, para não agravar a poluição. Por isso mesmo o comprador de um carro novo já paga uma taxa de reciclagem; e o respectivo certificado passa de proprietário em proprietário; o último, ao final de duas décadas, pode receber a taxa de volta.
Também não há como fugir à questão: que se vai fazer, em matéria de mobilidade e poluição, se continuamos a estimular, com isenção de impostos e outros benefícios, o aumento da frota de veículos (hoje, no País todo, mais de 3 milhões de veículos novos a cada ano)? Eles respondem por 40% das emissões totais, enquanto ao processo industrial cabem 10%. E os veículos respondem por 17,4 mil mortes anuais nas regiões metropolitanas paulistas - 7.932 na de São Paulo e 4.655, só na capital. Ou seja, a cada seis anos morre uma população equivalente à de uma cidade de 100 mil pessoas em consequência da poluição.
O professor Ricardo Abramovay, da USP, lembra (Folha de S.Paulo, 13/7) que nossas emissões do setor de transporte devem dobrar até 2025, como prevê a Agência Internacional de Energia. E o professor Paulo Saldiva afirma, em entrevista ao site EcoD, que "a poluição em São Paulo é um tumor maligno". Apesar de tudo, o patologista - um dos coordenadores da pesquisa discutida esta semana - considera-se "otimista, porque ninguém muda para melhor ou repensa seus hábitos se não tiver algum tipo de problema antes (...). As doenças costumam fazer as pessoas saírem da zona de conforto. Como estamos insatisfeitos, talvez estejamos criando as bases para melhorar a cidade". E o problema central, sob esse ângulo - acentua ele -, não é o da mobilidade, pois, "se a frota de carros elétricos correspondesse a 100% da existente, melhoraria a questão da poluição, mas não a da mobilidade".
Oxalá a realidade das pesquisas faça governantes e governados se moverem de forma mais adequada.   


Washington Novaes
O Estado de São Paulo – 27/09/2013

Comentário do SINFERP
Temos insistido nisso e de forma sistemática. Enquanto perdurar o transporte individual sobre o transporte púbico, e os poluentes sobre os sustentáveis (ou menos poluentes), essa conta não fecha.

4 comentários:

Thiago nunes viana disse...

Meu pai trabalha no transporte coletivo de são paulo (motorista de ônibus) e teve um infarto em janeiro de 2011. Na época ninguém soube explicar direito o porque dele ter infartado (não tinha diabetes, pressão alta, era relativamente novo - 56 anos na época... jogaram toda a culpa no stress). Não aceitei a tal desculpa, e vasculhando a internet, achei num blog algo relacionado a "estudos europeus mostram que é mais barato produzir diesel limpo (o tal s-10 ) do que tratar a população que ira sofrer as consequências do uso de combustível ruim na frota de veículos europeus.... como meu inglês não é la essas coisas, não consegui achar os tais estudos.... eis que finalmente alguém colocou em evidencia essas informações.... mas o principal motivo de eu ter continuado a vasculhar a internet a respeito, foi o fato "curioso" de que a cada ano, as alas dos hospitais que tratam de infartados estão ficando cada vez mais cheias de profissionais cujo trabalho está ligado ao trânsito: motoristas, fiscais de transito, policiais...... outro fato "curioso" é que a "sobrevida" de quem sofre infarto e volta a trabalhar na mesma área é de 2 anos, aproximadamente..... é comum meu pai chegar em casa e dizer: "fulano teve um infarto e morreu...." ou "cicrano ja tinha tido um infarto a 1,5 ano e teve outro recentemente. acabou morrendo, sendo que a gente via que ele seguia rigorosamente a dieta....."

Paulo Humberto Lima disse...

Sem palavras... lamento o caso ocorrido. Acredito que isso é mais um descaso do Governo que nao moderniza o nosso transporte Público, e sõ governa em favor dessas Máfiosas Empresas de ônibus que financiam suas Campanhas Políticas e Monopolizam o Transporte em toda Região(um Dono só domina toda Regão). E por isso que há muito tempo não voto mais nesse PSDB, PT, PMDB, PR, PV(que se dizia da Sustentabilidade) PC do B e entre outros Partidos que antes era do Povo e da união de todos, na verdade virou Empresas de Negócios de Interesses das Grandes Máfias que são Políticos e Empresários de grandes Setores.
E outra, o que me irrita e pode até ser besteira, e que toda vez que a Cidade recebe novos ônibus(exemplo aqui mesmo Campinas) eles nao compram ônibus mais Modernos com piso rebaixado, motores traseiros e menos barulhentos. Os Empresários daqui de Campinas(Monopólio só, dividem Empresás só por faixada)alegam que se comprar ônibus com piso rebaixado e Motor traseiro , fica muito caro pra eles(ohh, tadinhos deles...) e causa prejuízo aos bolsos deles. Pois ehh, todo ano eles adoram pedir aumento nas tarifas com as mesmas justificativas que todo ano já casei de ouvir.
Os carros que eles preferem comprar, sempre aqueles ônibus mais barato, com piso alto, motor dianteiro barulhento(principamente os da Merdeces Benz) fazendo que os Motoristas de ônibus vao ficando surdos com o tempo e sem conforto nenhum. A esses defensores, nao venham me dizer que "Ahh, a Cidade recebou Novos ônibus", dai respondo "Novas Carroças, só se for. Novos, tudo mesma porcaria!!"
Por isso que, até morrer se for possível. Vou lutar para que diversas Cidades Brasileiras implante o Sistema de VLT. Por exemplo já são as Cidades de Santos-SP, Cuiabá-MT e Sobral-CE que já adotaram e já estao construindo o Sistema Moderno de Veículo Leve sobre Trilhos(VLT). E lamento que São Paulo ainda nao pensa nisso e o pior que nem por BRT não pensam e preferem pegar uma Faixa de Transito já existente e pintar como "exclusivo para ônibus", muito fácil assim! Gastar dinheiro só com tintas para pintar novas faixas para ônibus. E alegando que se fazer Projetos para o VLT, fica muito caro demais para os Cofres Públicos. E outra, aqui em Campinas, lamento que o Prefeito daqui ainda continuar tendo a visão que o "BRT é o Melhor Projeto para Cidade" sendo que o VLT pra eles "É muito caro demais e fica inviável" o menos mal e que o mesmo anunciou de fazer os Estudos de viabilidade para o VLT ou Metrô Leve, mais vai demorar e em curto prazo ficaram com BRT mesmo. E Jundiaí também, a dois anos, também anunciou o VLT para Cidade, depois troca Prefeito e mudaram para BRT, confesso que fiquei com tanta raiva disso e ainda tendo mais nojo de Política.
Apesar que o Brasil ainda continua de olho só nos Corredores de ônibus e Rodovias(baixam o IPI Zero do carro, só para incentivar mais o Rodoviarismo) e nada de VLT e Trens de Passageiros. Vamos lutar, para modernizar e mudar essa "Política Pública" atual do nosso Transporte.

Thiago nunes viana disse...

Uma coisa que acho "ingraçado", está na lei o fato de somente ônibus com motor traseiro poderem ser utilizados para o transporte de passageiros (talvez seja por isso que a volvo demorou tanto tempo para lançar um chassis para onibus com motor dianteiro - aprendeu com as outras montadoras que no brasil, leis são "pra ingles ver").... defendo o VLT tambem, e outras soluções como o vlt sobre pneus (que tambem é citado aqui no blog)... no caso do vlt sob pneus ele seria interessante para o transporte no centro, uma vez que devido as ladeiras um vlt poderia ter dificuldades... mas enfim.... é como o Paulo Humberto Lima disse: empresa de ônibus = maquina de lavar dinheiro dos vereadores/demais politicos, afinal o prefeito ainda aparece de vez em quando para inalgurar alguma promessa enquanto os vereadores, alguem ainda lembra pra que eles servem (excluindo a corrupção, claro)? Outra coisa que vejo: se falar em vlt os politicos daqui vão logo para o exterior, trazer a tecnologia e tal... agora... o vlt do cariri foi ate la buscar essa tecnologia? Porque nossos governantes não dão a chance para empresas nacionais produzirem o nosso material ferroviario? talvez a pequena empresa que fez o vlt do cariri não tenha dinheiro suficiente para saciar a fome dessa raça de politicos imundos... por isso ela sequer é citada...existe uma tese defendida por um brasileiro que mora na alemanha atualmente (se nao me falha a memoria...)que diz que a linha 6 do metro de são paulo vai beneficiar a classe media ao invez da classe pobre, como tanto os governantes dizem... (isso tambem ja foi publicado aqui no blog....) o autor do estudo ressalta a falta de integração entre os estudos feitos pela prefeitura, metro e cptm. Quer dizer: nem se dão o trabalho de consultar estudos ja realizados... e a coisa é tão "bizarra" que a algum tempo, foi anunciado que a cptm tinha iniciado os estudos de viabilidade tecnica/economica para prolongar a linha 13 (a que finalmente vai chegar ao aeroporto de cumbica) até a região da mooca..... ou seja: na boca do governador, sistema metroferroviario. na realidade Metro concorrendo ferrenhamente com cptm por espaço para construção de linhas.......

SINFERP disse...

Caros amigos. A poluição ataca de um lado, e o desgaste emocional por outro. Não dá para imaginar alguém sair imune disso. A equação passar por mobilidade, poluição, segurança, etc. Essa condição adversa não prejudica apenas quem trabalha em transporte, mas igualmente quem precisa dele. Para fugir disso as pessoas compram seus automóveis, mas caem no trânsito, e continuam no mesmo cenário da poluição e da insegurança. Já tivemos indústria genuinamente nacional produzindo trens e até mesmo trólebus, mas faliram todas por falta de compradores.