segunda-feira, 8 de julho de 2013

Uma lição do passado

Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO - O grande assunto da semana que passou foram os protestos, que se tornaram atos de vandalismo, em São Paulo e no Rio de Janeiro principalmente, e até tiveram repercussões internacionais. Não irei comentá-los, seria uma redundância, mas vou lembrar um momento do passado.

Governo de JK (1956-1961). Por duas vezes, oficiais da Aeronáutica tentaram golpes, em Jacareacanga e Aragarças, levaram armas, aviões e deitaram manifestos, exigiam a deposição do presidente e convocavam o povo para uma guerra civil. Juscelino não usou a força para combater os revoltosos. Passada a crise, anistiou todos os oficiais envolvidos no golpe. Praticamente, não perdeu uma noite de sono por causa deles.

Em meio de seu mandato, estoura um movimento no Rio: estudantes ligados à UNE, a pretexto de um aumento nas passagens dos bondes, imobilizam a cidade, deitando nos trilhos da Light e exigindo um recuo do governo que autorizara as novas tarifas.

Ao contrário de Jacareacanga e Aragarças, JK passou duas noites sem dormir. Com seu instinto político, sabia que a paralisação do principal meio de transporte numa grande cidade, mesmo sem atos de vandalismo, representava sério perigo para seu governo.

Convocou a liderança da UNE, serviu cafezinho e água gelada aos estudantes e colocou a questão de forma simples: "Se vocês continuarem o movimento, eu serei deposto e vocês serão presos. É isso o que vocês querem?".

Nem houve debate nem consulta às bases. Os estudantes liberaram os trilhos, os bondes voltaram a circular. Duas rebeliões militares foram esvaziadas, não havia apoio da população para um golpe de Estado. A paralisação pacífica dos bondes numa só cidade fez JK arrumar a mala para ir embora. O episódio consta de suas memórias.

Carlos Heitor Cony


Folha de São Paulo – 08/07/2013

Comentário do SINFERP

Evidente que uma greve geral nos transportes equivale a uma greve geral.

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