terça-feira, 9 de julho de 2013

Nove de Julho - A Revolução Paulista de 1932


2 comentários:

Marco disse...

VLADIMIR SAFATLE

'Revolução'
Um dos revisionismos mais evidentes da história brasileira diz respeito às leituras do levante que se iniciou em 9 de julho de 1932.

Faz parte do exercício da historiografia conservadora, em sua matriz paulista, vender a ideia de que uma típi- ca revolta oligárquica teria sido uma revolução popular. Dessa maneira, somos obrigados, desde 1997, a comemo- rar as aspirações da elite paulista de outrora em retomar o controle do país.

Não se trata aqui de fazer a apologia do varguismo, o que seria um exercício míope e equivocado.

A ditadura instaurada por Getúlio Vargas a partir de 1937 foi um dos momentos mais sombrios da história brasileira. Querer vender, entretanto, a ideia de que os paulistas se revoltaram para fundar uma institucionalidade democrática e defender a legalidade constitucional é algo da ordem da piada malfeita.

Expulsa do poder por ser o eixo de uma República de fachada, assentada sobre os piores laivos autoritários e periodicamente sacudida por revoltas populares, a eli-te paulista procurou criar para si uma história de gló- ria e resistência.

O descontentamento po- pular com os pilares da Re- pública oligárquica e com a sua política dos governado- res era de ordem tal que go- vernos como o do mineiro Arthur Bernardes somente fo-ram possíveis sob estado de sítio permanente.

Outros, como o do presidente Washington Luís, governaram sob a Lei Celerada, de 1927, que censurava a imprensa e restringia o direito de reunião. Contudo, na defesa entusiasta do "espírito insubmisso de nosso povo", tal descontentamento desaparece.

O fato impressionante é como tal momento é usado atualmente por alguns que procuram recriar nossa história como se ela fosse a luta contínua contra o "perigo populista".

Estes que têm um cuida- do especial para com o risco populista, sempre prontos a denunciar as pretensas derivas em direção às modalidades de "chavismo", são estranhamente complacentes com os fundamentos oligárquicos dos Poderes no Brasil e em nosso Estado de São Paulo. Talvez porque eles gostem mesmo é de uma República nos moldes da que existia no país até 1930.

Isso apenas demonstra como o escritor George Orwell estava certo ao lembrar que "quem controla o passado controla o futuro".

Os embates históricos têm a característica de nunca terminarem completamente, de ressoarem como matriz de compreensão das lutas presentes. Por isso, quando levarmos hoje nossas crian- ças para desfiles, seria bom nos perguntarmos o seguin- te: o que estamos mesmo comemorando?

SINFERP disse...

Interessante, Marco. Gratos pela postagem de texto de Wladimir Safatle. Está ai para apreciação de nossos amigos visitantes. Dentre pós e contras, porém, nos parece importante ao menos apresentar uma versão do que tenha sido Nove de Julho, pois para a imensa maioria é apenas mais um feriado, e ainda prolongado, além do nome de uma avenida na capital paulista. Prezamos memória, até mesmo pelo fato da antiguidade da categoria ferroviária no Brasil, e que esteve presente em quase todos os grandes feitos históricos do país.