sexta-feira, 5 de julho de 2013

Mobilidade entrou na pauta da sociedade. Mas, e agora?

Nesses últimos vinte anos a frente da administração do Estado de São Paulo, o governo do PSDB só consegue falar de Metrô e CPTM porque herdou essas empresas de governos anteriores. Além dessas duas, também da Estrada de Ferro Campos do Jordão, e que igualmente herdou. De seu não tem absolutamente nada, exceto o VLT, cujas obras iniciam-se na Baixada Santista, e os curiosos monotrilhos, cujas obras estão também em andamento. Timidamente ampliou algumas linhas do Metrô, e conseguiu o feito de reduzir a extensão de linhas da CPTM. Passados vinte anos, e esse é o seu saldo no transporte de pessoas sobre trilhos ao longo do Estado de São Paulo.

Quanto ao passivo, não podemos e não devemos esquecer que, tendo o PSDB no comando do governo paulista, e ao mesmo tempo no do governo federal, toda a imensa e vasta malha ferroviária de São Paulo foi entregue quase que a título de doação para a exploração do setor privado, transformando nosso território em mero corredor de exportação de bens que nem mesmo produzimos. Pessoas? Nem pensar. Quem já cruzou o Estado de São Paulo por trens de passageiros é bom conservar a experiência na memória, ou por meio de eventuais fotografias que por acaso tenha guardado no baú.  Cínico, como de costume, o PSDB fala hoje em projetos para trens regionais, tendo por destino algumas das cidades que já foram por eles servidas no passado. Enquanto nada sai do papel, o dinheiro público vai escoando direto para o bolso das empresas que vendem serviços de “planejamento”, para que estudem o que já tivemos ao vivo e em cores – os trens regionais. Ora, para que servem os setores de planejamento do próprio governo?

Verdade que quando da doação de nossas ferrovias para o setor privado, o PSDB inventou também uma agência reguladora, a ANTT, que a exemplo de todas as demais agências reguladoras nunca regulou nada, nem mesmo em dez anos de governo do PT. No lugar de disciplinar os desmandos das operadoras privadas, preferiu dedicar esforços para inventar um TAV – Trem de Alta Velocidade -, que ainda não saiu do papel, mas para o qual já foi até mesmo criada uma empresa específica.

Definitivamente, este país não é sério.

O governo federal, porém, não está presente na administração de nosso Estado e nem de nossos municípios, que é de onde e para onde interessa discutir mobilidade. Jogar pedra no governo federal é desviar a atenção dos verdadeiros alvos, e bem perto de nós – governador e prefeitos do Estado de São Paulo. Não apenas eles, decerto, mas também deputados e vereadores, que poderiam ao menos inspirar um pouco mais do que têm feito e fazem. Não é sem razão que os movimentos que marcharam pelas ruas e avenidas não queriam por perto bandeiras de partidos políticos. Afinal, se fossem o que querem nos fazer crer, estariam nas praças liderando movimentos, e não deles fazendo uso oportuno.

Mas o que será, agora, da mobilidade?

Evidente que vai além, muito além do valor da tarifa. Parece que as pessoas não estão dispostas a entender por política de acessibilidade e mobilidade apenas a implantação de piso tátil, o rebaixamento de guias para trânsito de cadeiras de roda, “mãozinhas” plantados nas esquinas de maior visibilidade da mídia, e tampouco de ciclovias para deleite da classe média. As pessoas querem saber quais serão as soluções para a esmagadora maioria, couraça que medidas que visam apenas satisfazer ao deleite demagógico do politicamente correto nem mesmo arranha.

Parece claro que nenhum governo, e de nenhum partido político, tem proposta sustentável para solucionar esse drama que afeta a vida da maior parte de pessoas que vivem nos grandes centros.  Não tem proposta nem mesmo insustentável.

O governo do Estado de São Paulo não vai, para atender a demanda que ele próprio não atendeu em vinte anos de administração, surgir agora com linhas de metrô em direções e quantidades necessárias. Os monotrilhos em construção, bonitos e caros, não têm capacidade expressiva de transporte. A CPTM quando muito irá, com as denominadas “modernizações”, reduzir o número de falhas, pois a capacidade de transporte será praticamente a mesma e, com a inapetência da atual direção da empresa, nada mudará nos quesitos conforto e segurança nos serviços.

Esperávamos mais e melhor da administração Haddad, mas ela mantém o mesmo e velho modelo conservador dos ônibus. Irá apostar no que todos os seus antecessores apostaram – nos corredores de ônibus -, e que nunca deu certo. Diz que com os corredores, os ônibus serão mais velozes. Não serão, pois andam em fila e congestionam nas paragens. Formarão trens de ônibus, mas jamais poderão, como os trens de oito carros, embarcar e desembarcar os passageiros ao mesmo tempo, além de chegar e partir em tempo determinado.

Ninguém pensa e nem fala em VLT, esse pequeno trem, com capacidade relativa de transporte, circulando pelas mesmas artérias pensadas para os ônibus, mas com regularidade, conforto, segurança e movido por energia limpa. Um pequeno trem urbano, que circula na superfície, mais barato para implantar do que monotrilho, e muito mais do que metrô.  Não se pensa nele nem mesmo em paralelo às linhas da CPTM, onde poderia distribuir passageiros por meio de estações intermediárias entre as distantes estações dos trens.

Continuaremos nos pneus, na convivência tensa e inamistosa entre o transporte coletivo privado (os ônibus) e o transporte individual privado (os automóveis, motos e bicicletas). Enquanto isso não se resolve, pedestres e usuários de transporte coletivo ficam na mesma. Pior: sem voz e nem decisão, apesar da Lei da Mobilidade Urbana, que prevê a participação deles.

Não é muito diferente nas grandes cidades do interior, onde alcaides das províncias, e séquito de míopes e dóceis vereadores, simplesmente determinam a erradicação dos trilhos inativos (com anuência das autoridades reguladoras), sem ao menos pensar em um bonde, e muito menos na preservação de uma linha que, no presente ou no futuro, pode ser a matriz do transporte público em sua localidade, de modo a impedir que não se transforme em uma cidade como São Paulo, São Bernardo, Diadema, Guarulhos, ou qualquer outra das grandes que não tem transporte sobre trilhos, e que reclama de trânsito, congestionamento, acidentes e poluição.

Enquanto não sabem o que fazer, e tampouco têm tempo para fazer no curto prazo, políticos empurram uns para os outros a responsabilidade do problema. Municípios empurram para o governo do Estado, e esse para o governo Federal, como se Brasília administrasse o Estado e os municípios do Estado.

Nosso problema está aqui, precisa ser solucionado aqui, pelas autoridades daqui, mas com nossa voz e com conhecimento de projetos e de respectivos custos. Vamos ver quem abre esse espaço por iniciativa própria.


Éverson Paulo dos Santos Craveiro – presidente do SINFERP

2 comentários:

Lucas disse...

SINFERP, vocês acham que uma reforma política poderia ajudar a resolver esse problema do pouco comprometimento dos políticos com o transporte sobre trilhos? Talvez proibindo grandes doações e o financiamento de empresas em campanhas eleitorais. Pois, sabemos que "podem existir" empresas de ônibus ou empresários que financiam políticos a fim de obter vantagens deles.

SINFERP disse...

O comprometimento com trilhos passa, no que diz respeito a financiamento de campanhas, muito mais pelo dinheiro de empreiteiras do que da indústria ferroviária. Afinal, o material rodante é a parte mais barata, digamos assim, da obra. Para empreiteiros, porém, o "favor" volta do mesmo jeito, sendo em estradas de rodagem ou em estradas de ferro. No caso dos ônibus, aparece a figura poderosa dos empresários do setor. Esses sim, em troca de dinheiro de campanha, ou de "caixinha" para prefeitos e vereadores, mandam e desmandam. Eles são o impeditivo maior para a implantação de VLTs, que ferem diretamente os interesses deles. Fazem o lobbie em torno dos BRTs. Isso seria resolvido se os usuários pudessem entrar na discussão quanto a escolha dos modais, e decidir. Não vemos, portanto, como uma condição de reforma política, mas de participação da comunidade em seus próprios destinos.