quinta-feira, 21 de março de 2013

Ferrovia apodrece nas oficinas da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil

Patrimônio histórico definha em área que já serviu de trabalho e até escola para os bauruenses (Bauru – SP).

A placa de inauguração ainda está no mesmo lugar. E surpreendentemente, intacta. Aos 9 dias de outubro de 1921, quase um ano e dois meses depois do início da construção, “no período presidencial do exmo. sr. dr. Epitácio Pessôa (1865-1942)”, foram inauguradas as oficinas da então Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (1906-1975).

Apesar de caminhar para o 93º aniversário, os prédios de paredes robustas seguem firmes, de pé. No entanto, o que sobrou do patrimônio que acolheu por tantas décadas segue a sina de tudo que parece não ter dono na ferrovia: a deterioração permanente. O ambiente insalubre do lugar é ideal para o processo de apodrecimento de locomotivas canibalizadas, carros de passageiros depenados e ainda de alguns tornos que, até anteontem, ainda permaneciam fincados no chão.

O local tem livre acesso ao público, que corre o risco de ser assaltado ou mesmo ferido por telhas e vidros. É tanto abandono que mesmo quem deveria cuidar ajuda a piorar a situação: entre diversos veículos abandonados há até um da ALL (América Latina Logística), supostamente envolvido em algum acidente de trânsito. 

Além disso, as inúmeras poças d’água são ambiente generoso para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, em plena época de epidemia na cidade – até ontem, oficialmente, já se contavam mais de 1,5 mil casos somente este ano. 

Revitalização /Atualmente, apenas parte do complexo está em uso. O antigo prédio administrativo é utilizado pela Sebes (Secretaria de Bem Estar Social) e o contorno da rotunda – que ainda está lá – é a sede da UP (Unidade de Produção) da ALL. 

A concessionária afirmou, por meio de nota, que “todas as edificações serão revitalizadas nos próximos dois anos”. “As obras de paisagismo e a roçada já foram iniciadas neste mês de março”, reforça.

A concessionária afirma ainda que “o contrato de concessão ferroviária prevê inclusive a possibilidade de devolução de áreas não mais necessárias à operação ferroviária de cargas”.

 Ainda de acordo com a ALL, há tratativas para que parte da área seja destinada à prefeitura de Bauru. O BOM DIA apurou, no entanto, que o MPF (Ministério Público Federal) está atento a essa eventual formalização de “subconcessão”.

A Procuradoria verificará, por exemplo, se no contrato de cessão de alguma área ao município o patrimônio a ser recebido estará descrito em condições diferentes a essas da foto aí acima. Caso isso se confirme, vai entrar com uma ação para impedir essa transferência.

Reforma e museu / Apesar da imagem geral do abandono, um dos galpões passa por reformas atualmente, por iniciativa da Transfesa (Transportes e Serviços Ferroviários S/A ), uma empresa bauruense que presta serviços de manutenção de locomotivas no local.

As melhorias devem passar para os outros barracões, segundo informou a empresa. Em um deles, a prefeitura almeja instalar o primeiro museu do trem do Brasil. A considerar a “mumificação” do patrimônio ferroviário que sobrou, só falta a portaria.

Resgate de equipamentos dá ‘sobrevida’ à antiga escolinha
Foi às vésperas de uma noite de Natal. Um a um, os equipamentos foram retirados entre o que ainda havia sobrado nas antigas instalações da “escolinha da Noroeste”. 
Na carroceria dos caminhões, tornos, plainas, guilhotinas, entre outras máquinas e peças, utilizadas entre 1972 a 1995, no extinto centro de formação profissionalizante da ferrovia.
Uma história que, graças ao esforço de alguns idealistas ferroviários, continua no mais recente barracão do CTI (Colégio Técnico Industrial) da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru.

“Foi o último momento que senti alguma alegria de voltar ao lugar onde conheci ainda menino”, contou o hoje professor do CTI, Edson Alberto de Antonio, 50 anos, recordando-se daquela noite de dezembro de 2010.
Ele conta que a disponibilidade do patrimônio do que foi possível resgatar da escolinha – hoje avaliado em R$ 1 milhão – ocorreu por conta de um termo assinado com a prefeitura de Bauru.
Em 26 de abril de 1996, a Câmara Municipal autorizou o Executivo a formalizar um convênio com a extinta RFFSA para utilizar o centro profissionalizante – o que não ocorreria – em troca da isenção de IPTU.
Mas, do transporte ao uso efetivo, precisaram se passar quase dois anos. Nesse meio tempo, os equipamentos ficaram ao relento,  embora protegidos por plásticos, até que a Unesp construísse o barracão para acomodá-los.
“Mesmo depois de 11 anos sem uso, as máquinas foram recuperadas e estão em perfeito funcionamento. É um absurdo que isso pudesse ter se perdido pelo abandono”, desabafa o professor que, agora, pode se orgulhar da retomada da “escolinha” que ajudou a resgatar dos escombros do abandono e da história.
Bom Dia – Rodrigo Viudes – 21/03/2013

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