sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A marchinha do trem para Sorocaba


A mais recente marchinha de trombone que o governo paulista vem tocando, com razoável volume para chamar a atenção dos incautos, é a dos trens regionais. É curioso que o pessoal desse governo tenha escolhido justamente esse tema. É mais ou menos como falar de corda em casa de enforcado, mas com a diferença que, neste caso, os carrascos foram eles, e o enforcado todo o sistema ferroviário paulista.

Não cremos que todo o barulho que o governo estadual faz agora, em torno dos trens regionais, seja um ato de arrependimento, de constrição, ou que tipo de penitência for para pagar a bobagem feita, para sermos suaves no termo. Temos certeza de que nem lembra mais que o sistema ferroviário paulista virou pó por obra e graça dele. Em sua cabeça foi coisa do governo federal, esquecendo-se de que, na época, era uma única e mesma coisa. Mas, deve pensar para se reconfortar espiritualmente: “se o governo do outro partido que veio depois não mudou nada, é por que deve ter sido bem feito, né”? Se questionado, agora, proclamará que “o importante é olhar para frente e descortinar novos horizontes para o transporte ferroviário”, ou fará uso de outra frase ufanista de mesmo teor vazio. Escalou o vice-governador para ser o porta-voz oficial de tudo que se relacione com trens regionais (inclusive apresentar o plano de investimentos no estrangeiro) e o secretário dos transportes metropolitanos só aparece quanto CPTM ou Metrô estão no alvo de alguma encrenca. Nem mesmo sabemos quem é o secretário dos transportes, e os presidentes das empresas, como sempre, ninguém sabe e ninguém viu.

A letra da marchinha, talvez como um contraponto ao famigerado TAV patrocinado pelo governo federal, refere-se aos trens regionais que irão, segundo o plano, de Sorocaba a São José dos Campos e de Americana a Santos, em forma de cruz, tendo a cidade de São Paulo como centro. Imagine que você seja habitante de Limeira ou Rio Claro... Quem mandou ter uma empresa de ônibus que deve ser “amigona” do governo do estado, para o trem não chegar até aí?

Só que, implantar o trem regional, não é simplesmente utilizar a infraestrutura que ainda sobrevive e fazer as melhorias necessárias, o que seria minimamente certo e responsável. NÃO! O que o governo do estado  quer é fazer tudo novo, zero bala... Novas linhas de São Paulo até essas cidades. Só não disse onde e o que vai desapropriar. Mas, e o medão de negociar com o partido adversário e com as concessionárias que dizem, logo de saída, não ter nada para conversar com o estado, porque a concessão é federal?

Então, o melhor meio de propagandear o quase impossível é fazer bastante barulho, chamar a imprensa, espalhar press releases e acabou. Garante-se mais um mandato e, depois, continua-se a empurrar tudo com a mesma barriga.  

Imagine coisas como, por exemplo, fazer uma nova travessia ferroviária na Serra do Mar, ou desapropriar áreas em cidades como Jundiaí e Campinas para uma nova ferrovia. Para o lado leste, trechos que cruzavam as cidades do Alto Paraíba, além de Mogi, foram erradicados há pouco tempo. Para o lado oeste, é ínfimo o movimento de cargas após Itapevi, a última estação hoje atendida pela CPTM. Seria muito bom ter tudo novo e funcionando, mas e o custo dessa maluquice? Por que fazer tudo novo? Se nem Freud explica, muito menos os tocadores de trombone do governo do estado. A estes foi dada a missão de apenas tocar o trombone, e não a de explicar alguma coisa.

Essa turma não tem ideia de que trens regionais já foi uma realidade em passado não muito distante, e quer agora vender a ideia de que, além de reinventar a roda, está deixando-a mais redonda. Mas, no vale-tudo por novas obras e PPP´s - a última moda -, não tem sequer o escrúpulo de considerar que uma boa negociação com as concessionárias pode ser uma boa saída (e até de dar a uma delas um “cala boca” pelos maus serviços prestados). Talvez o pior, que só de imaginar lhes borra as calças, seja negociar com os aparentes arqui-inimigos partidários. Mas, se houvesse um mínimo de bom senso da parte desses aparentes inimigos partidários (ambos estão se mostrando a mesma coisa, mas com sinais trocados), poderiam realizar retificações de trechos das linhas existentes, ao menos para começar. Um aperfeiçoamento no sistema de sinalização poderia fazer conviver, numa mesma linha, os trens expressos - como os regionais -, com os metropolitanos da CPTM (como se fazia antigamente com os trens de passageiros para o interior e os subúrbios). Alguém pode argumentar que antigamente os intervalos dos trens metropolitanos eram muito maiores, mas, em compensação, replicamos com os novos sistemas de sinalização que a CPTM vem instalando em suas linhas, o CBTC, de última geração, desde que funcione, logicamente.

Porém, brigas partidárias à parte, neste circo de horrores ferroviário não encontramos santos, por mais que procuremos. A desculpa do governo paulista, desde que entregou os dedos e os anéis, é que agora a malha ferroviária paulista é de responsabilidade das concessionárias, da ANTT, do DNIT, do ministro, da presidenta ou de qualquer um que lhe pareça oportuno. Já estes tiram o corpo fora, sempre que possível, quando a frente da alça de mira de um merecido tiro que faça tombar a incompetência que campeia no sistema ferroviário nacional.

O governo federal também nada fez e nada faz contra o descalabro que algumas concessionárias promovem, e assim vamos indo, junto com as Transnordestinas e Norte-Sul da vida, que se arrastam sem fiscalização, e com aditivos contratuais sempre que, dizem elas, necessários. Mas o governo federal acha que o povão não quer saber disso. O povo quer o trem-bala porque “o homi disse que era bão”, e o defensor de plantão do TAV fala, em primeira pessoa, que “eu não quero trem regional que ande a 160 km/h porque não quero uma tecnologia do século 19”. Só que nem no século 20 tivemos trens rodando nessa velocidade. Mas, enquanto isso, na China...

Paulo Roberto Filomeno

7 comentários:

Anônimo disse...

o pior de tudo é q é tao visivel a maracutaia, e o nosso povo nao enxerga. estamos numa era de total ostracismo

SINFERP disse...

Não, Anônimo, e para colaborar com a cegueira ai estão os ilusionistas de plantão, da direita e da esquerda, além dos salvadores de almas e as mulheres pera, melancia, mamão, melão, etc...

Paulo Lima de Campinas disse...

Pois ehh, aqui em Campinas, estamos lutando muito para que os Trens Metropolitanos da CPTM chegue ate a Cidade. Que seria os trens saindo de Jundiai, parando por Louveira,Vinhedo e Valinhos.
E o problema, e que o Vice Governador Afif(nem vou com a cara dele, de arrogante) e o Governador Alckimim já falou que NAO HA VIABILIDADE PARA A EXTENÇÃO DOS TRENS DA CPTM ATE CAMPINAS, e que a prioridade e só os Trens Regionais. como pode isso??
Por isso que eu falo, esse Governador, além de anunciar os Trens Regionais que cujas obras só iniciaram daqui há 7 anos ainda. Ele tem que perder a Eleição. Esse mesmo governo que acabou com os Trens de Passageiros no Interior e Litoral. Deveria perder as Eleições de 2014. Mais nao, com certeza infelzimente pra nós, o POVAO vao tudo novamente votar nesse Atual Governo de novo...

Abraços!

SINFERP disse...

Boa noite, Paulo Lima. Gratos pela visita e pelo comentário. Não anda tão bem a tentativa de continuidade desse governo. De nossa parte, lamentamos não observar, da parte de outros partidos, discussões e propostas para (retorno) trens de passageiros no Estado de São Paulo. Agora, que esse já nos cansou, não tenha nenhuma dúvida.
Abraço

Paulo R. Filomeno disse...

Paulo, aqui no blog do São Paulo Trem Jeito, já publiquei alguns artigos sobre trem regional, veja se você acha algo no índice. Concordo com o que você escreveu, embora também esteja de acordo com o comentário do SINFERP. Não leve nada desses políticos a sério, um fala de TAV há muito tempo e ainda é só um gás. Não consegue nem terminar suas ferrovias de carga, a ANTT e DNIT são uns descalabros. O outro para compensar começou a falar de trem regional. Mas dá pra ver o interesse deles com o que você menciona. Nem levar a CPTM até Campinas conseguem. Também não conseguirão fazer o trem regional. Lamento por todos nós.

Euripedes disse...

Pessoal:levar a CPTM até Campinas não vai ser fácil.Não esqueçam que a linha aérea de alimentação elétrica já não existe (nem os postes de sustentação, sem Subestações Elétricas:precisa ser refeita 100%.O leito ferroviário está péssimo:serve para trens de carga de baixa velocidade mas não para trens com carros de passageiros.Existem muitas passagens de nível sem sinalização e cancelas.As estações,principalmente a de Campinas,está sucateada como terminal de passageiros.Sendo assim, como levar a CPTM até Campinas?Será necessário refazer o trecho desde Jundiaí e reformar as estações,transformando em terminais com integração com ônibus!E tem mais:a linha atual agora passa ao lado de alguns condomínios.Querem apostar como vão "chiar" com o barulho dos trens? Infelizmente essa é uma situação real.Como resolver tudo isso antes do trem da CPTM voltar a correr?

SINFERP disse...

Oi Eurípedes. Sim, a situação é exatamente essa que você retrata. Por outro lado, veja o lado positivo: governo e "parceiros" privados vão faturar os tubos fazendo tudo novo, novinho em folha. Nós, otários, também chamados de contribuintes, vamos pagar essa imensa conta para ter o que já tínhamos. Nosso país deve mesmo ser muito rico... CPTM? Se depender dela a malha atual encolhe.