Falando um pouco mais sobre o assunto
dos trens regionais que o governo paulista pretende implantar, verifiquei que o
“quadrado” ligando os pontos terminais de Americana, São José dos Campos (ou
Taubaté, como já se falou estes dias), Santos e Sorocaba, compreende uma área
de algo em torno de 25.000 km2, ou seja, 10% da área do estado de São Paulo,
cuja área total é 247.898 km2. Esta área é a mais densamente povoada do Estado,
com uma população de algo em torno de 20 milhões de habitantes.
Podemos comparar esta área com a
Holanda, que tem um pouco mais de 41.000 km2 e uma população de 17 milhões
de pessoas.
Por que a comparação com a Holanda e
ainda mais num assunto que envolve trens regionais? É simples. Quem tiver a
oportunidade de visitar aquele maravilhoso país e prestar atenção além dos
diques, dos moinhos de vento, de sua população educadíssima e dos campos de
tulipas, verificará que o grosso do transporte de pessoas é feito por trens.
São trens regionais que cobrem todo o país (pois numa área de 41.000 km2 não há
sentido se falar em trens de longo percurso) a partir da Centraal Station de
Amsterdam.
A NS - Nederlandse Spoorwegen (a
operadora ferroviária de transporte de passageiros de lá) opera uma enorme
frota composta de trens elétricos com 5 ou 6 carros cada trem, sendo quatro
carros de segunda classe, com fileiras de dois bancos e o corredor central, mas
com conforto adequado para as distâncias que esses trens percorrem e um ou dois
carros de primeira classe, os quais tem fileiras com um banco, o corredor e
dois bancos, de dimensões maiores que os de segunda classe. Claro que as
tarifas são diferenciadas. Atualmente vem sendo incorporados à frota trens com
carros de dois andares.
Descrições à parte, o que chama a
atenção é que a malha ferroviária da NS cobre a quase totalidade do país.
Enquanto nosso plano de trens regionais envolve simplesmente uma cruz, para
cobrir as cidades que já têm ferrovias, mas circulando através de uma nova e dispendiosa
ferrovia, a rede holandesa compõe-se de uma malha abrangente que atende a quase
totalidade das cidades importantes do país. O mapa abaixo, apesar de apresentar
legendas em holandês, permite visualizar a abrangência da malha ferroviária da
NS.
Então, já que estamos falando em
abrangência, será que teremos aqui todas as cidades importantes, que estão dentro
do “quadrado” a que me referi acima, atendidas pelos trens regionais que estão
no plano do governo do estado? Não, de jeito nenhum.
Começando em Americana e indo no
sentido horário, temos as seguintes cidades dentro do “quadrado”, mas fora do
plano dos trens regionais: Cosmópolis, Paulínia, Jaguariúna, Bragança Paulista,
Atibaia, Guarulhos, Guararema, Jacareí, São Bernardo do Campo, Cotia, Itu,
Salto, Indaiatuba e encostando-se a Santa Bárbara d´Oeste e Piracicaba.
Todas estas cidades têm em comum (exceto
São Bernardo) o fato de que já foram servidas por ferrovia no passado.
Inexplicavelmente foram erradicadas ou retificadas e saindo do eixo das
cidades. São Bernardo foi colocada nesta lista para chamar a atenção sobre o
fato de que deve ser a única cidade industrial em todo o mundo que não é e
nunca foi servida por transporte sobre trilhos, seja ferrovia, bonde, tramway
ou qualquer coisa semelhante.
Então, indo além do aproveitamento e
melhoria da malha existente, perguntamos: já que é para construir novos
trechos, por que não construir trechos que se conectem à rede existente e que
atendam as cidades mencionadas acima? Não seria uma prova de inteligência e de
aproveitamento de recursos um plano para uma malha abrangente ao invés de se
reconstruir o que pode ser aproveitado?
Isso, além de dar uma nova dinâmica à
rede de transportes na área de influência da capital, daria aos trens regionais
a abrangência necessária para prover com transporte rápido e de qualidade todas
as cidades num raio de pelo menos 100 a 150 km da capital. Aí poderíamos sim
dizer que teríamos uma rede de trens regionais. E a CPTM honraria seu nome com
brilho, fazendo jus ao seu P de Paulista.
Em tempo: A NS - Nederlandse Spoorwegen
também opera trens de longo percurso, porém estes saem das fronteiras do país.
Para comparar, as distâncias equivalentes aos pontos terminais das ferrovias
paulistas (Presidente Epitácio, Panorama e Santa Fé do Sul) estariam, a partir
de Amsterdam, na Suíça, na República Tcheca e na Polônia.
Paulo Roberto Filomeno
Porto Gente – 17/05/2012








